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— O Caminho Consagrado à Perfeição Cristã —

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Introdução

Sermão de A. T. Jones, pregado em
            18.07, 25.07 e 01.08.1899

Na revelação de Cristo o Salvador, Ele se manifesta em suas três ocupações: Profeta, sacerdote e rei. Nos dias de Moisés, foi escrito de Cristo enquanto profeta: “Eu levantarei um Profeta de entre os irmãos, como você, e porei minhas palavras na boca dele. E Ele falará tudo aquilo que eu lhe mandar. E para o que não escutar minhas palavras que aquele Profeta falará em meu Nome, eu lhe pedirei conta". Deut. 18:18 e 19. Esta idéia continua presente ao longo das Escrituras, até Sua vinda.

Considerando-o como Sacerdote, nos dias de Davi se escreveu de Cristo: “Jeová jurou, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” Salmos 110:4. Esta idéia continua presente nas escrituras, não somente até Sua vinda, mas mesmo depois dela.

E de Cristo como rei, se escreveu nos tempos de Davi: “Eu tenho ungido meu rei sobre Sião, monte de minha santidade”. Salmos 2:6. E essa noção perdurou igualmente nas escrituras posteriores, até sua vinda, depois dela e mesmo até o fim do sagrado livro. De maneira que as escrituras apresentam claramente a Cristo em seus três ofícios: Profeta, Sacerdote e Rei.

Esta tríplice verdade é amplamente reconhecida por todos quantos estejam familiarizados com as escrituras, mas em relação com ela, há uma verdade que não é tão conhecida: que Cristo não é as três coisas ao mesmo tempo. Os três ofícios são sucessivos. Primeiramente é Profeta, depois é Sacerdote e finalmente, Rei.

Foi “Profeta” quando veio ao mundo como Mestre enviado de Deus, o verbo feito carne e morando entre nós, “cheio de graça e de verdade.” Atos 3:19-23. Mas então, não era sacerdote, nem o haveria sido se houvesse permanecido na terra, já que está escrito: “se estivesse sobre a terra, nem ainda seria sacerdote” Heb. 8:4. Mas, havendo terminado seu trabalho em sua obra profética sobre a terra, e tendo subido ao céu, à destra do trono de Deus, é agora e aí nosso “Sumo Sacerdote”, que está “vivendo sempre para interceder por nós”, e lemos: “Ele edificará o templo de Jeová, e Ele levará glória, e se assentará e dominará em seu trono, e será Sacerdote em seu trono; e conselho de paz haverá entre ambos” Zac. 6:12 e 13.

Assim como não era Sacerdote enquanto estava na terra como profeta, tampouco hoje é Rei no céu enquanto sacerdote. É certo que reina, no sentido e no fato de que está assentado no trono do Pai, sendo assim o Sacerdote real e o Rei Sacerdotal segundo a ordem de Melquisedeque, que, ainda que Sacerdote do Deus altíssimo, era também Rei de Salém, ou seja, Rei de paz. Heb. 7:12. Mas esse não é o ofício de Rei nem o trono a que se refere e contempla a profecia e a promessa, quando faz menção de sua função específica de Rei.

A função específica de Rei que fazem referência a profecia e a promessa, é que Ele reinará sobre o trono de Davi seu pai, perpetuando o reino de Deus na terra. Esse ofício real é a restauração da perpetuidade da coroa e trono de Davi, em Cristo. A coroa e trono de Davi foram interrompidos quando, por causa da profanação e maldade do povo de Judá e Israel, estes foram levados cativos a Babilônia, momento em que se fez a declaração: “E tu, profano e ímpio príncipe de Israel, cujo dia virá no tempo da extrema maldade, assim diz o Senhor Jeová: Tira o diadema, levanta a coroa: esta não será mais: exalta ao humilde e humilha o soberbo. Ao revés, ao revés, ao revés a porei, e não será mais, até que venha aquele a quem pertence de direito, e a ele a entregarei.” Eze. 21:25-27.

Desta forma e neste tempo, o trono, coroa e diadema do reino de Davi, ficaram interrompidos “até que venha aquele a quem pertence por direito”, momento em que lhe serão entregues. E aquele que possui o direito não é outro que Cristo, “o filho de Davi”. E esse “até que venha”, não é sua primeira vinda, em sua humilhação como varão de dores, experimentado em quebrantamento; e sim sua Segunda vinda, quando vier em sua glória como “Rei de reis e Senhor de Senhores”, quando seu reino esmiuçar e consumir todos os reinos da terra, ocupando-a em sua totalidade e permanecendo para sempre. É certo que quando o bebê de Belém nasceu, nos nasceu um rei, e foi e tem sido rei para sempre, e por direito próprio. Mas é igualmente certo que esse ofício real, diadema, coroa e trono da profecia e da promessa, não os tomou então, nem os tem tomado ainda, nem os tomará até que venha outra vez. Será então quando tome sobre sí mesmo o poder na terra, e reinará plena e verdadeiramente em todo o esplendor de Sua glória e função régia. Porque nas escrituras se especifica que depois que “ o juiz se sentou, e os livros foram abertos”, “ eis aqui...como um filho de homem que vinha, e chegou até o ancião de dias...e lhe foi dado senhorio, e glória, e o reino; e todos os povos, nações e línguas lhe serviram; seu senhorio é senhorio eterno que não passará. Dan. 7:13 e 14. É então quando possuirá verdadeiramente “o trono de Davi seu pai: e reinará na casa de Jacó para sempre; e de seu reino não haverá fim.” Luc. 1:32 e 33..

Fica assim evidente pela consideração da escritura, da promessa e da profecia em relação com seus três ofícios, que estes não são ofícios consecutivos. Não são simultâneos, não ocorrem ao mesmo tempo. Nem sequer dois dos três. Primeiramente veio como profeta, atualmente é sacerdote e será rei quando regressar. Terminou sua obra como profeta antes de ser sacerdote, e terminará sua obra como sacerdote antes de vir como Rei. E precisamente da forma em que foi, é e será, é como devemos considerá-lo.

Dito de outro modo: quando esteve no mundo como profeta, assim era como o povo devia considerá-lo. Assim é também como devemos contemplá-lo neste período, pela simples razão de que não era sacerdote enquanto esteve na terra. Mas passado este tempo, foi feito sacerdote. É o que agora é. É tão certamente sacerdote na atualidade, como foi profeta quando esteve na terra. Em seu ofício e obra de sacerdote, devemos considerá-lo tão certamente, tão cuidadosa e continuamente enquanto que como tal sacerdote, como deviam e devemos considerá-lo em seu ofício de profeta, enquanto esteve na terra.

Quando voltar de novo em sua glória e na majestade de seu reino, sobre o trono de Davi seu pai, então o consideraremos como rei, que é o que em toda justiça será. Mas só neste então é que poderemos considerá-lo verdadeiramente em seu ofício real, no pleno sentido do que implica sua realização. No que se refere a sua realeza, podemos hoje contemplá-lo somente como aquilo que será um dia. Como profeta, como o que já foi. Mas em seu Sacerdócio, devemos hoje considerá-lo como o que é agora, já que isso é o que realmente é hoje. É o único ofício em que no presente momento se manifesta; e esse é precisamente, e não outro, o ofício no qual podemos considerar sua obra e pessoa.

Não se trata simplesmente de que estes três ofícios, de profeta, sacerdote e rei sejam sucessivos, e sim, que mais que isso, o são com um propósito. E com um propósito vinculado a esta precisa ordem de sucessão em que se dão: profeta, sacerdote e rei. Sua função como profeta foi preparatória e essencial para sua função como sacerdote, e suas funções de profeta e sacerdote, nesta ordem, são preparatórias para sua função como rei. É essencial que nós o consideremos em seus ofícios pela devida ordem. Devemos contemplá-lo em seu papel de profeta, não somente a fim de poder aprender de quem se disse “nunca falou homem algum como esse”, senão que também possamos compreendê-lo adequadamente em seu ofício de sacerdote. E devemos considerá-lo no ofício de sacerdote, não somente a fim de receber o infinito benefício de seu sacerdócio, mas também a fim de estar preparados para o que havemos de ser, porque está escrito: “serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele mil anos”. Apoc. 20:6.

E havendo considerado Jesus em seu ofício de profeta, com o fim de preparar-nos para considerá-lo com propriedade em seu ofício de sacerdote, é essencial que o consideremos em seu ofício de sacerdote a fim de estar capacitados para apreciá-lo como rei, isto é, para poder estar com Ele ali, e reinar com Ele. De nós mesmos, se diz: “tomarão o reino os santos do Altíssimo, e possuirão o reino até os séculos e até os séculos dos séculos”, e “ reinarão para sempre” . Dan. 7:18 e Apoc 22:5.

Dado que o sacerdócio é precisamente o ofício e obra de Cristo, e que desde sua ascensão ao céu vem sendo assim, Cristo em seu sacerdócio é o supremo motivo de estudo para todo cristão, e certamente deveria também ser para todos os demais.


Cpaítulos do Livro

Um Sacerdote tal
Um Sacerdote tal

“Assim que, a suma do que temos dito é: Temos tal pontífice que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário, e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem”. Heb. 8:1 e 2.

Esta é a suma, ou essência do Sumo Sacerdócio de Cristo, apresentado nos primeiros sete capítulos de Hebreus. A suma, ou conclusão que aqui se apresenta, não é propriamente o fato de que tenhamos um Sumo Sacerdote, e sim, que temos um tal Sumo Sacerdote. “ Tal” significa “de certa classe ou tipo”, de características tais, que é como se tem mencionado ou especificado previamente; não diferente ou de outro tipo. Ou dizer, no que precede (os primeiros sete capítulos da epístola dos Hebreus) deve haver especificado certas coisas em relação com Cristo como Sumo Sacerdote, certas qualificações pelas quais foi constituído Sumo Sacerdote, que ficam latentes nesta afirmação: “Assim que, a suma do que temos dito é que temos um tal Sumo Sacerdote.

Para compreender esta escritura, e captar o verdadeiro sentido ou implicações de ter um Sumo Sacerdote tal, é pois necessário examinar as partes anteriores da epístola. A totalidade do capítulo sétimo está dedicada ao estudo deste sacerdócio. O capítulo sexto conclui com a idéia de seu sacerdócio. O quinto está dedicado quase inteiramente ao mesmo. O quarto termina com ele, e não é senão uma continuação do terceiro, que começa com uma exortação a “considerar o Apóstolo e Pontífice (Sumo Sacerdote) de nossa profissão, Cristo Jesus. E isso, como conclusão do que se tem exposto anteriormente. O segundo capítulo termina com a idéia de Cristo enquanto que “misericordioso e fiel Pontífice”, e uma vez mais, também concluindo o que tem precedido nos primeiros dois capítulos, já que ainda que haja dois capítulos, o tema é o mesmo.

O comentado, mostra claramente que por sobre qualquer outro, o grande tema dos primeiros sete capítulos de Hebreus é o sacerdócio de Cristo, e que as verdades aí anunciadas, seja de uma ou de outro forma, não são mais que diferentes apresentações da mesma grande verdade de seu sacerdócio, resumido tudo nas palavras: “temos tal Sumo Sacerdote”.

Por tanto, havendo descoberto a verdadeira importância da expressão acima, o que devemos fazer agora é começar desde o princípio, nas primeiras palavras do livro de Hebreus, e manter presente a idéia até chegar “a suma do que temos dito”, fixando sempre a atenção no pensamento central de tudo quanto se apresenta sobre “tal pontífice”, e que em tudo quanto se diz, o grande propósito é mostrar à humanidade que “temos um Sumo Sacerdote tal”. Por plenas e ricas que possam ser as verdades em sí mesmas, em relação com Cristo, há que se manter sempre em mente que estas verdades aí expressas tem por objetivo final mostrar esta grande verdade, e estudando estas verdades, tal como se nos apresentam na epístola, devemos considerá-las como subordinadas e tributárias da grande verdade que se define como “a suma do que temos dito”.

No segundo capítulo de Hebreus, como conclusão do argumento que aí se apresenta, lemos: “Pelo qual, devia em tudo ser semelhante aos irmãos, para vir a ser misericordioso e fiel Sumo Sacerdote no que é para com Deus”. Aqui se estabelece que a condescendência de Cristo é fazer-se semelhante à humanidade, o ser feito carne e sangue e morar entre os homens, foram necessários a fim de poder vir a ser misericordioso e fiel Sumo Sacerdote. Agora, para poder apreciar a magnitude de sua condescendência e qual é o real significado de Seu “estar na carne”, como filho do homem e como homem, é necessário saber qual foi a magnitude de sua exaltação como filho de Deus e como Deus, e esse é o tema do primeiro capítulo. A condescendência de Cristo, sua posição e natureza ao ser feito carne sobre a terra, nos são dadas no segundo capítulo de Hebreus mais plenamente que em qualquer outra parte das escrituras. Mas isto acontece no segundo capítulo. O primeiro lhe precede. Portanto, a verdade central ou tema do primeiro capítulo, é necessariamente precedente ao segundo. Deve compreender-se plenamente o primeiro capítulo para poder captar a verdade e conceito contidos no segundo.

No primeiro capítulo de Hebreus, a exaltação, posição e natureza de Cristo tais quais o eram no céu, antes de que viesse ao mundo, nos são dadas com maior plenitude que em qualquer outra parte da bíblia. Do anterior se deduz que a compreensão da posição e natureza de Cristo, tal como era no céu, é essencial para compreender sua posição e natureza tal como foi na terra. E posto que “devia ser em tudo” tal qual foi na terra, “para vir a ser misericordioso e fiel pontífice”, é essencial conhecê-lo tal qual foi no céu. Isto é assim já que uma coisa precede a outra, constituindo portanto, parte essencial da evidência que resume a expressão “temos tal Sumo Sacerdote”.

Cristo: Deus

Cristo: Deus

Qual é, pois a consideração com respeito a Cristo, no primeiro capítulo de Hebreus? Primeiramente se apresenta a “Deus” o Pai, como quem fala ao homem. Como Aquele que falou “em outro tempo aos pais, pelos profetas”, e que “nestes últimos dias nos tem falado pelo Filho”.

Desta maneira se nos apresenta a Cristo, o Filho de Deus. Logo se diz de Cristo e do Pai: “O qual (o Pai) o constituiu herdeiro de tudo, pelo qual (o Pai, por meio de Cristo) fez o universo”. Assim, previamente a sua apresentação, e à nossa consideração como Sumo Sacerdote, Cristo, o Filho de Deus se nos apresenta sendo com Deus o criador, e como o Verbo ou a Palavra ativa e vivificante “pelo qual, fez o universo”.

A seguir, do próprio Filho de Deus, lemos: “o qual, sendo o resplendor de Sua glória (de Deus), e a mesma imagem de sua substância (substância de Deus), e sustentando todas as coisas com a palavra de seu poder, havendo feita a purificação de nossos pecados por si mesmo, sentou-se à destra da Majestade nas alturas”.

A conclusão é que no céu, a natureza de Cristo era a natureza de Deus. Que Ele, em sua pessoa, em sua substância, é a mesma imagem, o mesmo caráter da substância de Deus. Eqüivale dizer que no céu, da forma em que existia antes de vir a este mundo, a natureza de Cristo era a natureza de Deus, exatamente na mesma substância.

Portanto, se diz dEle posteriormente que “feito tanto mais excelente que os anjos, quanto alcançou por herança mais excelente nome “Deus”, que no versículo oitavo o Pai dá ao Filho “mas ao filho: teu trono ó Deus, pelo séculos dos séculos”.

Assim, é tanto mais excelente que os anjos, quanto o é Deus em comparação com eles, e é assim porque Ele tem mais excelente nome. Nome que não expressa outra coisa além do que de fato é, em sua mesma natureza.

E este nome, o tem por herança. Não é um nome que lhe seja outorgado, e sim, que herdou. Está na natureza das coisas, como verdade eterna, que o único nome que uma pessoa pode herdar é o nome de seu pai. Este nome de Cristo, este nome que é mais excelente que os anjos, não é outro que o de seu Pai, e o nome de seu Pai é Deus. O nome do Filho, portanto, o que o pertence por herança, é Deus. E este nome, que é mais excelente que o dos anjos, lhe á apropriado, já que é “tanto mais excelente que os anjos”. Este nome é Deus, e é tanto mais excelente que os anjos, como o é Deus, com respeito a eles.

Seguindo a epístola, o apóstolo passa a considerar a posição e natureza de Cristo, tanto mais excelente que a dos anjos, “porque a qual dos anjos disse Deus jamais: Meu Filho és tu, hoje te tenho gerado? E outra vez: Eu Lhe serei Pai, e Ele me será Filho?”. Isto reforça o conceito referido no versículo anterior, de seu nome mais excelente, já que Ele, sendo o Filho de Deus – sendo Seu Pai Deus mesmo, leva por herança o nome de seu Pai, o qual é Deus: E enquanto seja tanto mais excelente que o nome dos anjos, o é na medida em que Deus o é mais que eles.

Insiste-se no entanto ainda mais, nestes termos: “E outra vez, quando introduz o Primogênito na terra, diz: E lhe adorem todos os anjos de Deus”. Assim, é tanto mais excelente que os anjos quanto é adorado por eles, e esta última, por expressa vontade Divina, devido a que em sua natureza, Ele é Deus.

Novamente se apresenta de forma abundante o enorme contraste entre Cristo e os anjos: “E certamente dos anjos diz: O que faz a seus anjos espíritos, e a seus ministros chama de fogo. Mas ao Filho: Teu trono, ó Deus, subsiste eternamente”.

E continua: “Vara de equidade a vara de teu reino; tens amado a justiça e aborrecido a maldade; pelo qual te ungiu Deus, o tu Deus, com óleo de alegria, mais que a teus companheiros”.

Diz o Pai, falando do Filho: “Tu, ó Senhor, no princípio fundaste a terra, os céus são obras de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu serás eternamente; e todos eles envelhecerão, mas seus anos não acabarão. Os céus serão mudados, mas Ele é o mesmo. Isto demonstra que Ele é Deus: da mesma natureza de Deus.

Há ainda mais contrastes entre Cristo e os anjos: “Qual dos anjos jamais disse: Senta-te a minha destra, até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés? Não são todos espíritos administradores, enviados a serviço em favor daqueles que herdarão o reino dos céus?”.

Assim, no primeiro capítulo de Hebreus, se revela a Cristo como mais exaltado que os anjos, como sendo Deus. E como tanto mais exaltado que os anjos como o é Deus, pela razão de que Ele é Deus. É apresentado como Deus, do nome de Deus, porque é da natureza de Deus. E sua natureza é tão inteiramente a de Deus, que é a mesma imagem da substância de Deus. Tal é Cristo o Salvador, espírito de espírito, e substância de substância de Deus. E é essencial reconhecer isto no primeiro capítulo de Hebreus, a fim de compreender qual é sua natureza como homem, no segundo capítulo.

Cristo: homem

Cristo: homem

A identidade de Cristo com Deus, da mesma maneira como se nos apresenta no primeiro capítulo de Hebreus, não é mais que uma introdução que tem por objeto estabelecer suaidentidade com o homem, da mesma maneira como é apresentado no segundo. Sua semelhança com Deus, expressa no primeiro capítulo, é a única base para a verdadeira compreensão de sua semelhança com o homem, da mesma maneira que se apresenta no segundo capítulo.

E aquela semelhança com Deus, apresentada no primeiro capítulo de Hebreus, é semelhança, não na de uma imagem simples ou representação, mas de ser realmente como ele na mesma natureza, a mesma imagem da substância deles, espírito de espírito, substância de substância de Deus.

Se nos apresenta o anterior como condição prévia para entender a semelhança Dele com o homem. Quer dizer: a partir do comparativo anterior devemos entender que sua semelhança com o homem não é simplesmente na forma, imagem ou representação, mas na natureza, e na mesma substância. De não ser deste modo, todo o primeiro capítulo de Hebreus, com sua informação detalhada, estaria neste respeito sem significado e fora de lugar. Qual é, pois, esta verdade de Cristo feito em semelhança de homem, segundo o capítulo segundo de Hebreus?

Mantendo presente a ideia principal do primeiro capítulo, e os primeiros quatro versículos do segundo – os que se referem a Cristo em contraste com os anjos: mais exaltado que eles, como Deus, lemos o quinto versículo do segundo capítulo, onde começa o contraste de Cristo com os anjos: um pouco menor que os anjos, como homem.

Assim, lemos: “Porque não sujeitou aos anjos o mundo vindouro, do qual falamos. Testificou porém em certo lugar, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste pouco menor que os anjos, e o coroaste de glória e honra, e o puseste sobre as obras de Tuas mãos; todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés. Porque no que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que não seja sujeito a ele, mas ainda não vemos que todas as coisas lhe sejam sujeitas. Porém vemos a Jesus.

Equivale dizer que Deus não colocou o mundo vindouro em sujeição aos anjos, senão que o colocou em sujeição ao homem. Mas não o homem ao que originalmente se pôs em sujeição, já que ainda que anteriormente tenha sido assim, hoje não vemos tal coisa. O homem perdeu seu domínio e em lugar de ter todas as coisas sujeitas debaixo de seus pés, ele mesmo está agora sujeito à morte. E isso pela única razão de que está sujeito ao pecado. “Assim como o pecado entrou no mundo pôr um homem, e pelo pecado a morte, e a morte assim passou a todos os homens, pois todos pecaram”Rom. 5:12. Está em sujeição à morte porque está sujeito ao pecado, já que a morte não é outra coisa que o salário do pecado.

Ainda assim, segue sendo eternamente certo que não sujeitou o mundo vindouro aos anjos, e sim, ao homem, e agora, o homem é Jesus Cristo.

É certo que atualmente não vemos que as coisas estejam submetidas ao homem. Em verdade, se perdeu o senhorio sobre todas as coisas dadas a este homem em particular. No entanto, “vemos...a este Jesus,” como homem, vindo recuperar este senhorio. “vemos...a este Jesus,”, como homem, vindo para que “todas as coisas lhe sejam sujeitas”.

O homem foi o primeiro Adão: este outro Homem é o derradeiro Adão. O primeiro foi feito um pouco menor que os anjos, o derradeiro, o vemos também “pouco menor que os anjos”, o primeiro homem não permaneceu na situação na qual foi feito, “pouco menor que os anjos”. Perdeu isso, e desceu ainda mais, e foi sujeito ao pecado, e por isso, sujeito ao padecimento, até o padecimento de morte.

E ao último Adão, o vemos no mesmo lugar, na mesma condição: vemos pelo padecimento de morte, a aquele Jesus que é feito um pouco menor que os anjos. E “o que santifica e os santificados, são todos de um.”

O que santifica é Jesus. Os que são santificados são gente de todas as nações, reinos, línguas e povo. E um homem santificado, em uma nação, reino, língua ou povo, constitui a demonstração divina de que toda a alma desta nação, reino, língua ou povo, poderia ser santificada. E Jesus, havendo sido feito um deles, para que os pudesse levar à glória, demonstra que é juntamente um entre a humanidade. Ele, como homem, e os homens mesmos, “de um são todos: pelo qual não se envergonha de chamá-los irmãos;” Portanto, de igual forma que no céu era mais exaltado que os anjos, como Deus, assim na terra, foi menor que os anjos, como homem. De igual maneira que, quando foi mais exaltado que os anjos, como Deus Ele e Deus eram de Um, assim também quando esteve na terra, sendo menor que os anjos, como homem, Ele e o homem são de um. Ou, dizendo de outra forma, precisamente de igual modo que, pelo que respeita a Deus, Jesus e Deus são de Um – de um espírito, de uma natureza, de uma substância - , pelo que respeita ao homem, Cristo e o homem são de um – de uma carne, de uma natureza, de uma substância.

A semelhança de Cristo com Deus, e a semelhança de Cristo com o homem, o é em substancia, tanto como na forma. De outra maneira, não teria sentido o primeiro capítulo de Hebreus, como uma introdução ao segundo. Careceria de sentido a antítese apresentada entre ambos os capítulos. O primeiro capítulo estaria vazio de conteúdo, fora de lugar, na introdução que faz ao seguinte.

Ele também participou do mesmo

Ele também participou do mesmo

O primeiro capítulo de Hebreus mostra que a semelhança de Cristo com Deus não é simplesmente na forma ou representação, porém, na mesma substância inclusive; e o segundo capítulo revela com a mesma clareza que sua semelhança com o homem não é simplesmente na forma ou representação, e sim, igualmente na mesma substância. É semelhança com os homens, tal como estes o são em todo respeito, exatamente como são. Portanto, está escrito: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus...e o Verbo foi feito carne, e habitou entre nós.” João 1: 1-14.

E que isso se refere à semelhança do homem tal como este é em sua natureza caída, pecaminosa, e não tal como foi em sua natureza origina, impecável, se constata no texto: vemos... pelo padecimento da morte, a aquele Jesus que foi feito "um pouco menor que os anjos”. Portanto vemos que Jesus foi feito, em sua situação como homem, da forma em que o homem era, quando este foi sujeito à morte.

Assim, tão certamente como vemos a Jesus feito menor que os anjos, até o padecimento de morte, vemos demonstrado com isso que, como homem, Jesus tomou a natureza do homem tal como é este desde que entrou a morte, e não a natureza do homem como era antes de ser sujeito à morte. Mas a morte entrou unicamente por causa do pecado: a morte nunca poderia Ter entrado, se não houvesse entrado o pecado. E vemos Jesus feito um pouco menor que os anjos, pelo padecimento da morte. Portanto, vemos a Jesus feito na natureza do homem, como o homem era depois que este pecou, e não como era antes que o pecado o alcançasse. O fez assim para que fosse possível que “experimentasse a morte por todos”, ao fazer-se homem, para poder alcançar o homem, e devia vir ao homem exatamente onde o homem está. O homem está sujeito à morte. De maneira que Jesus devia fazer-se homem, tal como é este desde que foi sujeito à morte.

“Porque convinha que Aquele por cuja causa são todas as coisas, e pelo qual todas as coisas subsistem, havendo de levar à glória a muitos filhos, fosse consumado por aflições ao autor da salvação deles”. Hebreus 2:10.

Assim, fazendo-se homem, convinha que viesse a ser feito tal como o homem é. O homem está submetido a sofrimento, portanto, convinha que viesse aí onde o homem se encontra, em seus sofrimentos.

Antes que o homem pecasse, não estava em nenhum sentido sujeito a sofrimentos. Se Jesus houvesse vindo na natureza do homem tal como este era antes da queda, isto não teria sido mais que vir em uma forma e em uma natureza nas quais haveria sido impossível para Ele conhecer os sofrimentos do homem, e portanto, não teria podido alcançá-lo para salvá-lo. Mas, posto que “convinha que aquele por cuja causa são todas as coisas, e por quem todas as coisas subsistem, havendo de levar à glória a muitos filhos, fizesse que fosse consumado por aflições o autor da salvação deles. Está claro que Jesus, ao fazer-se homem, compartilhou a natureza do homem como este é desde que veio a ser sujeito ao sofrimento, e sofrimento de morte, que é o salário do pecado.

Lemos: “Assim, que, como os filhos participaram de carne e sangue, Ele também participou do mesmo” vers. 14. Ele, em sua natureza humana, tomou a mesma carne e sangue que tem os homens. Em uma só frase encontramos todas as palavras que cabe empregar para fazer positiva a idéia. Os filhos dos homens são participantes de carne e sangue; e por isso, Ele participou de carne e sangue. Mas isso não é tudo: mais que isso, participou da mesma carne e sangue da que são participantes os filhos, Ele mesmo, de igual maneira, participou da mesma carne e sangue que os filhos.

Assim, o espírito da inspiração, deseja até tal ponto que esta verdade seja esclarecida, destacada e compreensível a todos, que não se contentam em utilizar menos que todas quantas palavras possam se utilizar para falar-nos disso. E é assim que se declara que tão precisa e certamente como “os filhos participaram de carne e sangue, Ele também participou do mesmo.”

E isso fez para “pela morte...livrar os que pelo temor da morte estavam por toda a vida sujeitos à servidão.” Participou da mesma carne e sangue que nós temos na servidão do pecado e ao temor da morte, a fim de poder libertar-nos da servidão ao pecado e ao temor da morte.

Assim, “o que santifica e os que são santificados, de um só são todos: pelo qual não se envergonha de chamá-los irmãos”.

Esta grande verdade do parentesco de sangue, esta irmandade de sangue de Cristo com o homem, se ensina no evangelho em Gênesis. Quando Deus fez seu pacto eterno com Abraão, as vítimas dos sacrifícios foram cortadas em duas partes, e Deus, com Abraão, passaram entre ambas partes. Gen. 15:8-18; Jer. 34:18,19;Heb.7:5,9. Através deste ato, o Senhor entrava no pacto mais solene dos conhecidos pelos orientais, por toda a humanidade: o pacto de sangue, fazendo-se assim irmão de sangue de Abraão, uma relação que sobrepuja qualquer outra na vida.

Esta grande verdade do parentesco do sangue de Cristo com o homem se desenvolve ainda mais no evangelho em Levítico. No evangelho em Levítico encontramos o registro da lei da redenção (resgate) do homem e suas heranças. Quando algum dos filhos de Israel havia perdido sua herança, ou mesmo, se havia sido feito escravo, existia provisão para seu resgate. Se ele era por si mesmo capaz de redimir-se, ou redimir sua herança, podia fazê-lo. Mas se não podia fazê-lo por sí mesmo, então o direito de resgate recaía em seu parente mais próximo entre seus irmãos, senão precisamente naquele que fosse o mais próximo em parentesco, sempre que este pudesse. Lev. 25:24-28, 47-49; Ruth 2:20;3:9,12,4:1-14.

Assim, segundo Gênesis e Levítico, se ensinou durante toda esta época o que encontramos aqui enunciado no segundo capítulo de Hebreus: a verdade de que o homem tem perdido sua herança e ele mesmo está em escravidão. E posto que por sí mesmo não se pode redimir, nem pode redimir sua herança, o direito de resgate recai no parente mais próximo que possa fazê-lo. E Jesus Cristo é o único em todo o universo que tem esta capacidade.

Mas para ser o redentor, deve Ter, não somente o poder, mas também o parentesco de sangue. E deve ser, não somente próximo, senão ao parente de sangue mais próximo. Assim, “porquanto os filhos” – os filhos de homem que perdeu sua herança - “participaram de carne e sangue, Ele também participou do mesmo” – compartilhou conosco a carne e sangue em sua mesma substância, fazendo-se assim nosso parente mais próximo. Por isso pode dizer-se que Ele e nós “de um são todos”; pelo qual não se envergonha de chamá-los irmãos”. Mas a escritura, depois de haver feito constatação desta verdade capital, diz mais: “Porque certamente não tomou aos anjos, mas sim, a semente de Abraão tomou. Pelo qual, devia ser em tudo semelhante aos irmãos”, sendo feito Ele mesmo, irmão com eles, na confirmação do pacto eterno.

E isso o fez com um fim: “porque enquanto Ele mesmo padeceu sendo tentado, é poderoso para socorrer aos que são tentados”, já que se pode “compadecer de nossas fraquezas”, havendo sido “tentado em tudo segundo nossa semelhança, mas sem pecado”. Hebreus 4:15. Havendo sido feito, em sua natureza humana, em todas as coisas como nós, pode ser, e foi, tentado em todas as coisas como o somos nós. A única forma na qual Ele podia ser “tentado em tudo segundo nossa semelhança”, é sendo feito “em tudo semelhante aos irmãos”.

Posto que em sua natureza humana é um de nós, e posto que “Ele mesmo tomou nossas enfermidades” (|Mat. 8:17), pode “compadecer-se de nossas enfermidades”. Sendo feito em todas as coisas como nós, quando foi tentado, sentiu justamente como sentimos nós quando somos tentados, e conhece tudo a respeito disso. E desta forma é poderoso para auxiliar e salvar plenamente a todos quantos o recebam. Dado que em sua carne, e como Ele mesmo na carne era tão débil como o somos nós, não podendo por Ele mesmo “fazer nada” (João 5:30), quando “levou nossas enfermidades, e sofreu nossas dores” (Isaías 53:4), e foi tentado em tudo como o somos nós, sentindo como nós sentimos, por sua divina fé conquistou tudo pelo poder de Deus que esta fé trazia a Ele, e que tem trazido a nós, em nossa carne.

Portanto, “chamarás seu nome Emanuel, que é: Deus conosco”. Não somente Deus com Ele, mas Deus conosco. Deus era com Ele desde a eternidade, e poderia seguir sendo ainda que não houvesse se entregado por nós. Mas o homem, pelo pecado ficou privado de Deus, e Deus quis vir de novo a nós. Portanto, Jesus se fez “nós”, a fim de que Deus com Ele pudesse converter-se em “Deus conosco”. E esse é seu nome, porque isso é o que Ele é. Louvado seja Seu nome. E essa é “a fé de Jesus”, e seu poder. Este é nosso Salvador: um com Deus, e um com o homem; “por isso, pode também salvar plenamente aos que por Ele se chegam a Deus”.

Feito súdito da lei

Feito súdito da lei

“Cristo Jesus...sendo em forma de Deus...se despojou a sí mesmo, tomando forma de servo, feito semelhante aos homens”. Filip. 2:5-7. Foi feito semelhante aos homens, como são os homens, precisamente onde estes estão. “O verbo foi feito carne”. “Participou do mesmo”, da mesma carne e sangue da que são participantes os filhos dos homens, na condição na qual estão desde que o homem caiu no pecado. E assim está escrito que “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, feito...súdito da lei (nascido debaixo da lei). Estar debaixo da lei é ser culpado, condenado, e sujeito à maldição, já que está escrito: sabemos que tudo que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz: para que...todo o mundo seja culpado ante o juízo de Deus. Isso é assim “porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. Rom. 3:19,23; 6:14.

E a culpabilidade de pecado traz a maldição. Em Zacarias 5:1-4, o profeta contemplou “um rolo que voava...de vinte côvados de cumprimento e dez côvados de largura”. O Senhor lhe disse: “esta é a maldição que sai sobre a face de toda a terra.” E qual é a causa desta maldição que sai sobre a face de toda a terra? É esta: “porque todo o que furta, (como está em uma parte do rolo), será destruído; e todo o que jura, (como está na outra parte do rolo) será destruído”.

O rolo é a lei de Deus. Cita-se um mandamento de cada uma das tábuas, mostrando que ambas estão incluídas. Todo aquele que rouba – que transgride a lei de Deus, no que se refere a Segunda tábuas – será destruído, de acordo com esta parte da lei; e todo o que jura – transgredindo o que se refere a primeira tábua da lei – será destruído, de acordo com esta parte da lei.

Os anotadores celestiais não necessitam escrever um registo a propósito dos pecados particulares de cada um; é suficiente anotar no rolo pertencente a cada homem, o mandamento particular que tem sido violado em cada transgressão. Que este rolo da lei vai acompanhando a cada um, onde quer que vá, até permanecer em sua casa mesmo, está demonstrado nas palavras: “Eu a tirei, diz Jeová dos exércitos, e virá à casa do ladrão, e à casa do que jura falsamente em meu nome; e permanecerá no meio de sua casa”. E a menos que se encontre um remédio, este rolo da lei permanecerá ali até que a maldição consuma a este homem e a sua casa, “com seus madeiramentos e suas pedras”, isto é, até que a maldição devore a terra naquele grande dia em que os elementos, ardendo, serão desfeitos. “Já que o aguilhão da morte é o pecado”, e a maldição do pecado, “a lei”. 1 Cor. 15:56, Isa. 24:5,6; 2 Ped. 3:10-12.

Mas, afortunadamente, “Deus enviou a seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, para redimir aos que estavam debaixo da lei” Gal 4:4 e 5. Vindo como o fez, trouxe redenção a toda alma que se encontra debaixo da lei. Mas a fim de trazer perfeitamente essa redenção aos que estão debaixo da lei, Ele mesmo há de vir aos homens precisamente aí onde estes se encontram, e da forma em que se encontram, debaixo da lei.

Tudo isto, Jesus assumiu, já que foi “feito súdito da lei”; foi feito “culpado”; foi feito condenado pela lei, foi feito tão culpado como o é todo homem que está debaixo da lei. Foi “feito” debaixo da condenação, tão plenamente como o é todo homem neste mundo, “porque maldição de Deus é todo o que é levado ao madeiro” Deut. 21:23.

A tradução literal do hebreu é como segue: “aquele que é levado ao madeiro é a maldição de Deus”. E essa é precisamente a força do fato com respeito a Cristo, já que se nos diz que foi “feito maldição”. Assim, quando foi feito debaixo da lei, foi feito tudo o que significa estar debaixo da lei. Foi feito culpável, foi feito condenado, foi feito maldição.

Mas mantenha-se sempre presente que tudo isso que, “foi feito”, em sí mesmo, Ele não era por defeito inato, e sim que “foi feito” tudo isso. E tudo quanto foi feito, o foi por nós: por nós que estamos debaixo da lei; por nós que estamos debaixo da condenação por haver jurado, mentido, matado, roubado, cometido adultério e toda outra infração do rolo da lei de Deus, e esse rolo vai conosco e permanece em nossa casa.

Foi feito debaixo da lei, para redimir aos que estão debaixo da lei. Foi feito maldição, para redimir aos que estão debaixo da maldição, POR CAUSA, de estar debaixo da lei.

Mas seja quem seja o beneficiado pelo que foi realizado, e seja o que seja o alcançado por seu cumprimento, não se esqueça jamais o fato de que, a fim de poder realizá-lo, ele teve que ser “feito” o que já eram previamente aqueles para quem se fez o que foi feito.

Portanto, todo homem, em qualquer parte do mundo, que conheça o sentimento de culpa, necessariamente conhece o que Cristo sentiu por ele, e por esta razão, conhece quão perto veio Jesus dele. Todo aquele que sabe o que é a condenação, conhece exatamente o que Cristo sentiu por ele, e compreende assim quão perfeitamente é capaz de simpatizar-se com ele, e de redimí-lo. Qualquer um que conheça a maldição do pecado, “quando alguém sentir a praga do seu coração” nisto pode ter uma idéia exata de quanto Jesus experimentou por ele, e de quão plenamente se identificou Jesus, em sua mesma experiência, com ele.

Levando a culpa, estando debaixo da condenação, e desta forma, debaixo do peso da maldição, Jesus, durante toda uma vida neste mundo de culpa, condenação e maldição, viveu a perfeita vida da justiça de Deus, sem pecar absolutamente jamais. E todo homem conhecedor da culpa, condenação e maldição do pecado, sabendo que Jesus realmente sentiu em sua experiência tudo isto precisamente tal como o sente o homem; se porém, esse homem crê em Jesus, poderá conhecer por sua própria experiência a benção da perfeita vida de justiça de Deus em sua vida, redimindo-o da culpa, da condenação e da maldição, manifestando-se ao longo de sua vida e guardando-o absolutamente de pecar.

Cristo foi feito debaixo da lei, para que pudesse redimir aos que estavam debaixo da lei. E a bendita obra se cumpre para toda alma que aceite uma redenção tal. “Cristo nos redimiu da maldição da lei, sendo feito por nós maldição”. Não é em vão que se fez maldição, já que justamente nisto consiste a consecução do fim almejado, em benefício de tudo o que se receba. Tudo isto se fez “para que a benção de Abraão fosse sobre os gentios em Cristo Jesus; para que por meio da fé recebamos a promessa do Espirito”. Gál. 3:14.

Uma vez mais, seja qual for o fim buscado ao seu cumprimento, deve-se ter sempre presente o fato de que, em sua condescendência, e no anular-se a sí mesmo sendo feito semelhante aos homens e feito carne, Cristo foi feito debaixo da lei, culpado, sob condenação, sob maldição de uma forma tão plena e real como é toda alma que há de ser redimida.

E havendo passado por tudo isso, vindo a ser o autor de eterna salvação, podendo salvar plenamente, aos que por Ele se achegam a Deus.

Feito de mulher

Feito de mulher

De que forma foi Cristo feito carne? Como veio a participar da natureza humana? Exatamente da mesma maneira que viemos a ser cada um de nós, os filhos dos homens. Já que está escrito: “Porquanto os filhos do homem participaram de carne e sangue, Ele também participou do mesmo.”

Também... do mesmo, significa “da mesma maneira”, “do mesmo modo”, “igualmente”. Assim, participou da “mesma” carne e sangue que têm os homens, da mesma maneira na qual os homens participaram dela. E esta maneira é mediante o nascimento: assim é como ele participou do mesmo. Disse pois a Escritura, com toda propriedade, que “um filho se nos deu.”

Em harmonia com o raciocínio anterior, lemos que “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher.” Gál. 4.4. Havendo nascido de mulher neste mundo, nasceu a partir da única classe de mulher que este mundo conhece. Mas, porque devia ser nascido de mulher? Porque não de homem (varão)? Pela importante razão de que ser nascido de homem não o haveria aproximado suficientemente do gênero humano, tal com é o gênero humano debaixo do pecado. Foi feito de mulher a fim de descer até o máximo, até o último nível da natureza humana em seu pecado.

Para conseguir isto, deveria ser nascido de mulher; porque foi a mulher, e não o homem, quem originalmente caiu primeiro em transgressão. Porque “Adão não foi enganado, senão que a mulher, sendo seduzida, veio a ser envolta na transgressão.” I Tim. 2:14. Se Ele houvesse sido feito simplesmente da descendência do homem, não haveria alcançado a plena profundidade do terreno do pecado, já que a mulher pecou, de forma que o pecado estava no mundo, antes de que o homem (varão) pecasse.

Cristo foi, pois, nascido de mulher, com o objetivo de poder enfrentar o grande mundo de pecado desde o mesmo ponto de sua entrada no mundo. Se houvesse nascido de outra coisa que não fosse de mulher, haveria ficado no meio do caminho, o que haveria significado em realidade a total impossibilidade de redimir os homens do pecado.

Posteriormente, li o trecho seguinte:

Seria a “semente de mulher”, quem feriria a cabeça da serpente; e é somente sendo a “semente da mulher”, e sendo “nascido de mulher”, como poderia enfrentar a serpente em seu próprio terreno, precisamente ali de onde entrou o pecado neste mundo.

Foi a mulher, neste mundo, quem primeiramente transgrediu. Foi através dela que o pecado originalmente entrou. Portanto, para redimir os filhos dos homens do pecado, Aquele que seria o Redentor devia ir os filhos dos homens do pecado, Aquele que seria o Redentor devia ir além do homem, para encontrar o pecado que esteve no mundo antes que o homem pecasse.

É por isso que Cristo, que veio para redimir, foi “nascido de mulher”. Sendo “nascido de mulher” pode seguir o rastro do pecado até as origens de sua fonte de entrada no mundo, através da mulher. E assim, para vir ao encontro do pecado no mundo, e erradicá-lo até exterminar o último vestígio dele, é lógico que deveria compartilhar a natureza humana tal como esta é desde a entrada do pecado.

Se não houvesse sido deste modo, não teria havido nenhuma razão pela qual devesse ser “feito de mulher”. Se não fosse para vir no mais estreito contato com o pecado, tal como este está no mundo, tal como está na natureza humana; se houvesse tido que separar-se no menor grau dele, tal como nos encontramos na natureza humana, então não teria porque ser “feito de mulher”. Mas uma vez que foi nascido de mulher, não de homem; uma vez que foi feito daquela por quem o pecado entrou no mundo na sua mesma origem; e não nascido de homem, que entrou no pecado depois que este houvera entrado no mundo, nisto se demonstra mais além de toda a possibilidade de dúvida que entre Cristo e o pecado neste mundo, e entre Cristo e a natureza humana tal como está sob o pecado no mundo, não há nenhum tipo de separação, nem no menor grau. Foi feito carne; foi feito pecado. Foi feito carne tal como a carne é, precisamente como é a carne neste mundo, e pecado precisamente como é pecado.

E tudo isto foi necessário com o fim de redimir a humanidade perdida. O separar-se no menor grau, em que sentido fosse, da natureza daqueles a quem veio redimir, teria significado o completo fracasso.

Portanto, uma vez que foi “nascido sob a lei”, porque sob a lei estão os que veio redimir, e uma vez que foi feito maldição, já que sob a maldição estão aqueles a quem veio redimir, e que foi feito pecado, porque os que veio a redimir são pecadores, “vendidos a escravidão do pecado”, precisamente, assim devia ser feito carne, e a “mesma” carne e sangue, porque são carne e sangue aqueles a quem veio a redimir; e devia ser “nascido de mulher”, porque o pecado esteve no mundo ao princípio, pela e na mulher. Por conseguinte é certo, sem nenhum tipo de exceção, que “devia ser em tudo semelhante aos irmãos.” Heb. 2:17.

Se não houvesse sido feito da mesma carne de aqueles a quem veio redimir, então não serviria absolutamente de nada que se fizesse carne. Mais ainda: Posto que a única carne que há neste vasto mundo que veio a redimir, e esta pobre, pecaminosa e perdida carne humana que possui todo o homem, se esta não é a carne da qual foi feito, então ele não veio realmente jamais ao mundo que precisa ser redimido. Se veio em natureza humana diferente da que existe realmente neste mundo, então, apesar de ter vindo, para todo o fim prático de alcançar e auxiliar o homem, esteve tão longe dele como se nunca houvesse vindo. Se houvesse sido assim, haveria estado tão longe em Sua natureza humana e haveria sido tão de outro mundo como se nunca houvesse vindo ao nosso, em absoluto. Não há nenhuma dúvida de que Cristo, em Seu nascimento, participou da natureza de Maria – a “mulher” da qual foi “feito”. Mas a mente carnal resiste a admitir que Deus, na perfeição de Sua santidade, aceitasse vir até a humanidade, onde esta está em sua pecaminosidade. Portanto, têm sido feitos esforços para escapar às conseqüências desta gloriosa verdade que implica o desprendimento do eu, inventando uma teoria segundo a qual a natureza da virgem Maria seria diferente da do resto da humanidade: que sua carne não era exatamente tal como a que é comum em toda a humanidade. Esta invenção pretende que, por certo processo estranho, Maria foi feita diferente do resto dos seres humanos, com o propósito particular de que Cristo pudesse nascer dela da forma que convinha.

Tal invento culminou no que se conhece como o dogma católico da imaculada concepção. Muitos protestantes, senão a grande maioria deles, junto a outros católicos, crêem que a imaculada concepção se refere à concepção de Jesus pela virgem Maria. Mas este é um erro crasso. Não se refere em absoluto à concepção de Cristo por Maria, senão à concepção da mesma Maria, por parte da mãe dela.

A doutrina oficial e “infalível” da imaculada concepção, tal como é defendida solenemente, tanto que é artigo de fé, pelo papa Pio IX falando ex cátedra, em 8 de dezembro de 1854, é como segue:

“Pela autoridade do nosso Senhor Jesus Cristo, dos benditos apóstolos Pedro e Paulo, e por nossa própria autoridade, declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que sustém que a mui bendita virgem Maria, no primeiro instante de sua concepção, por uma graça e privilégio especiais do Deus Todo-Poderoso, à vista dos méritos de Jesus, o Salvador da humanidade, foi preservada livre de toda a mácula de pecado original, é uma doutrina que tem sido revelada por Deus, e portanto, deve ser sólida e firmemente crida por todos os fiéis.

Portanto, se alguém pretendesse, coisa que Deus impeça, pensar em seu coração de forma diferente da que nós temos definido, saiba e entenda que seu próprio juízo o condena, que sua fé naufragou e que caiu da unidade da Igreja.” Catholic Belief, p. 14 Escritores católicos definem este conceito nos seguintes termos: O antigo escrito, “De Nativitate Christi”, encontrado nas obras de São Cipriano, disse: Sendo que (Maria) era “muito diferente do resto do gênero humano, foi-lhe comunicada a natureza humana, mas não o pecado”.

Teodoro, patriarca de Jerusalém, disse no segundo concílio de Niza, que Maria “é verdadeiramente a mãe de Deus, e virgem antes e depois do parto; e foi criada em uma condição mais gloriosa que toda outra natureza, seja esta intelectual ou corporal.” Id., p. 216, 217

Isto situa claramente a natureza de Maria além de toda semelhança possível ou relação com o gênero ou a natureza humana tal como esta é. Tendo o anterior claramente presente, sigamos esta invenção em seu próximo passo. Será nas palavras do cardeal Gibbons: “Afirmamos que a Segunda pessoa da bendita trindade, o Verbo de Deus, quem é em sua natureza divina, desde a eternidade, gerado do Pai, consubstancial com Ele, vindo o cumprimento do tempo, foi novamente gerado ao nascer da virgem, tomando assim para si mesmo, da matriz materna, uma natureza humana da mesma substância que a dela.

Na medida que o sublime mistério da encarnação pode ser refletido pela ordem natural, a bem aventurada virgem Maria, sob a intervenção do Espírito Santo, comunicando à Segunda pessoa da trindade, tal como o faz toda a mãe, uma verdadeira natureza humana da mesma substância que a sua própria, é real e verdadeiramente sua mãe”. Faith of Our Fathers, p. 198, 199.

Agora relacionemos ambas as coisas. Em primeiro lugar, vemos a natureza de Maria definida como sendo não somente “muito diferente do resto do gênero humano”, senão “mais sublime e gloriosa que toda outra natureza”, situando-a assim infinitamente além de toda a semelhança ou relação com o gênero humano, tal como realmente somos.

Em segundo lugar, se descreve a Jesus tomando de Maria uma natureza humana da mesma substância que ela.

Segundo esta teoria, como que dois e dois somam quatro, se deduz que em sua natureza humana, o Senhor Jesus é “muito diferente” do resto da humanidade: verdadeiramente, sua natureza não é humana em absoluto.

Tal é a doutrina católica romana sobre a natureza humana de Cristo. Tal doutrina consiste simplesmente em que esta natureza não é de nenhuma maneira a natureza humana, senão a divina: “mais sublime e gloriosa que toda outra natureza”. Consiste em que em Sua natureza humana, Cristo esteve até tal ponto separado do gênero humano que foi totalmente diferente do resto da humanidade: que Sua natureza foi tal que não pode ter nenhuma identificação de sentimentos com os homens.

Mas esta não é a fé de Jesus. A fé de Jesus é que “porquanto os filhos participaram de carne e sangue, Ele também participou dos mesmos.”

A fé de Jesus é que Deus enviou Seu Filho “em semelhança de carne de pecado”. A fé de Jesus é que “devia ser em tudo semelhante aos irmãos”. É que “Ele mesmo tomou nossas enfermidades”, e que pode se “compadecer de nossas fraquezas”, havendo sido tentado em todos os pontos, da mesma forma que nós o somos. Se não houvesse sido como nós, não haveria podido ser tentado como nós o somos. Mas Ele foi “tentado em tudo à nossa semelhança”. Portanto, foi “em tudo”, “segundo a nossa semelhança”.

Nas citações que lemos neste capítulo temos falado sobre a fé católica, temos apresentado a postura de Roma sobre a natureza de Cristo e de Maria. No segundo capítulo de Hebreus e passagens similares da Escritura vemos refletida, e neste estudo temo-nos esforçado por expor da forma em que a Bíblia a apresenta, a fé de Jesus com respeito a Sua natureza humana.

A fé de Roma em relação com a natureza humana de Cristo e de Maria, e também de nossa natureza, parte desta noção da mente natural segundo a qual Deus é demasiado puro e santo para morar conosco e em nós, em nossa natureza humana pecaminosa: tão pecaminosos como somos, estamos demasiado distantes dEle em Sua pureza e santidade, demasiado distantes para que Ele possa vir a nós tal como somos.

A verdadeira fé – a fé de Jesus – é que, afastados de Deus como estamos em nossa pecaminosidade, em nossa natureza humana que Ele tomou, veio a nós justamente onde estamos; que, infinitamente puro e santo como Ele é, e pecaminosos, degradados e perdidos como nós estamos, Deus, em Cristo, através de Seu Espírito Santo, quer voluntariamente morar conosco e em nós para salvar-nos, purificar-nos, e fazer-nos santos.

A fé de Roma é que devemos necessariamente ser puros e santos a fim de que Deus possa morar conosco.

A fé de Jesus é que Deus deve necessariamente morar conosco, e em nós, a fim de que possamos ser puros e santos.

A lei da herança

A lei da herança

O Verbo foi feito carne.

“Vindo o cumprimento do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher”. Gál. 4:4. "Jeová carregou nEle o pecado de todos nós”. Isa. 53:6.

Temos visto que Cristo, sendo feito de mulher, alcançou o pecado na mesma fonte de sua entrada original neste mundo, e que era preciso que fosse feito de mulher a fim de alcançar este fim. Também temos visto que a iniquidade foi posta sobre Ele, mediante os pecados reais de todos nós.

De tal maneira que todo o pecado existente, desde sua origem no mundo, até o próprio final deste, foi posto sobre Cristo: ambos, o pecado tal como é em si mesmo, e tal como é ao nós o cometermos. O pecado em sua tendência, e o pecado no ato: o pecado tal como é hereditário em nós, não cometido por nós; e o pecado que cometemos.

Somente desta forma poderia ser carregado nEle o pecado de todos nós. Somente sujeitando-se Ele mesmo à lei da hereditariedade poderia alcançar o pecado em sua autêntica e verdadeira dimensão, tal como é em realidade. Se não fosse assim, haveriam sido postos sobre Ele os pecados que nós temos efetivamente cometido, com a culpa e a condenação que lhes correspondem. Mas mais além disso, há em toda a pessoa, de muitas maneiras, a tendência ao pecado, herdada desde gerações passadas, que todavia não culminou no ato de pecar, mas está sempre disposta, quando a ocasião o permite, a consumar-se no ato efetivo de pecar. O grande pecado de Davi é uma boa ilustração disto: Sal. 51:5; 2 Sam. 11:2.

Ao livrar-nos do pecado, não é suficiente que sejamos salvos dos pecados que temos efetivamente cometido: devemos ser também livrados de cometer outros pecados. E para que isso seja assim, deve ser confrontada e submetida essa tendência hereditária ao pecado; devemos ser possuídos pelo poder que nos guarde de pecar, um poder para vencer esta tendência ou desvantagem hereditária para com o pecado que há em nós.

Todos os pecados que temos realmente cometido foram depositados sobre Ele, Lhe foram imputados para que sua justiça nos pudesse ser dada, nos pudesse ser imputada. Também lhe foi depositada nossa tendência para o pecado, ao ser feito carne, ao ser feito de mulher, da mesma carne e sangue que nós, a fim de que sua justiça possa realmente manifestar-se em nós, na vida cotidiana.

Assim, enfrentou o pecado na carne que tomou, e triunfou sobre ele, como está escrito: “Deus enviando a seu Filho em semelhança de carne de pecado, por causa do pecado, condenou o pecado na carne”. Porque Ele é nossa paz...destruindo em sua carne as inimizades”. E assim, precisamente da mesma forma em que os pecados que realmente temos cometido lhe foram imputados, para que sua justiça nos fosse imputada a nós, assim, enfrentando e conquistando, na carne, a tendência ao pecado, e manifestando justiça nesta mesma carne, nos capacita – Nele, e Ele em nós, a enfrentar e conquistar na carne, esta mesma tendência ao pecado, e manifestar justiça nesta mesma carne.

E é assim como a respeito dos pecados que efetivamente temos cometido, os pecados do passado, sua justiça nos é imputada da mesma forma em que nossos pecados foram imputados a Ele. E a fim de guardar-nos de pecar, nos comunica sua justiça em nossa carne, assim como nossa carne, com sua tendência ao pecado, foi comunicada a Ele. Desta maneira, é um Salvador completo. Nos salva de todos os pecados que temos efetivamente cometido; e nos salva igualmente de todos os que poderíamos cometer, separados Dele.

Se não houvesse tomado a mesma carne e sangue que compartilham os filhos dos homens, com sua tendência ao pecado, então, que razão ou filosofia justificaria a ênfase que se dá nas escrituras a sua genealogia? Era descendente de Davi; descendente de Abraão, de Adão, e sendo feito de mulher, alcançou inclusive o que precedeu a caída de Adão: as origens do pecado no mundo.

Nesta genealogia figura Joaquim, cuja maldade fez que fosse sepultado como um asno, “arrastando-o e jogando-o fora dos portais de Jerusalém”- Jer. 22:19; Manassés, que fez “desviar a Judá e aos moradores de Jerusalém, para fazer mais mal que os povos que Jeová destruiu diante dos filhos de Israel”; Acaz, que “havia despojado a Judá, e rebelado-se gravemente contra Jeová”; Roboão, que nasceu de Salomão depois que este havia abandonado ao Senhor; o próprio Salomão, que nasceu de Davi e Bateseba; também Ruth, a moabita, e Raabe; igualmente a Abraão, Isaque, Jessé, Asa, Josafá, Ezequías e Josias; os piores juntamente com os melhores. E as ações ímpias até dos melhores, nos são relatadas com idêntica fidelidade que as boas. Em toda esta genealogia, dificilmente encontraremos um, de cuja vida se haja dado referência, que não possua em seu registro alguma má ação. Observe-se que foi ao final desta genealogia que “o verbo se fez carne, e habitou entre nós...”. Foi “feito de mulher” ao final de uma genealogia tal. Foi em uma linha descendente como esta, que Deus enviou “a seu filho em semelhança de carne de pecado”. E essa linha descendente, esta genealogia, significou para Ele precisamente o que significa para todo homem, pela lei de que a maldade dos pais é visitada nos filhos, até a terceira e quarta geração. Foi para Ele significativa nas terríveis tentações do deserto, como o foi ao longo de toda sua vida na carne.

Foi de todas as maneiras, por herança e por imputação, que “Jeová depositou sobre Ele os nossos pecados”. E assim constituído, com esta imensa desvantagem, recorreu triunfalmente o terreno no qual, sem nenhum tipo de desvantagem, falhou o primeiro casal. Mediante sua morte, pagou a penalidade de todos os pecados cometidos, podendo assim atribuir sua justiça a todos aqueles que escolham recebê-la. E por haver condenado o pecado na carne, abolindo em sua carne a inimizade, nos livra do poder da lei da herança; e pode assim, na justiça, comunicar seu poder e natureza Divinos a fim de elevar-nos sobre essa lei, mantendo por cima dela toda alma que o receba.

E assim lemos que “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, feito de mulher, feito súdito da lei”. Gal. 4:4. E “Deus enviando a seu Filho em semelhança de carne de pecado, e por causa do pecado, condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei fosse cumprida em nós, que não andamos conforme a carne, mas conforme o espírito”. Rom. 8:3,4. “Porque Ele é nossa paz,...destruindo em sua carne as inimizades,...para edificar em Si mesmo os dois (Deus e o homem) em um novo homem, fazendo a paz” . Efe. 2:14,15.

“Pelo qual, devia em tudo ser semelhante aos irmãos,...porque no que Ele mesmo padeceu sendo tentado, é poderoso para socorrer aos que são tentados”.

Seja que a tentação venha do interior ou do interior, Ele é o perfeito escudo contra ela; em conseqüência, salva plenamente aos que por Ele se chegam a Deus. Deus, enviando seu próprio Filho em semelhança de carne de pecado. Cristo, tomando nossa natureza tal como ela é, em sua degeneração e pecaminosidade, e Deus morando constantemente com Ele e Nele, nesta natureza; em tudo isso Deus demonstrou a todos, pelos séculos, que não há pessoa neste mundo tão carregada de pecado, ou tão perdida, que Deus não se alegre em morar com ele e Nele, para salvá-lo de tudo isso, e para levá-lo pelo caminho da justiça de Deus.

E com toda propriedade é seu nome Emanuel, que declarado é, “Deus conosco”.

Em tudo semelhante a raça humana

Em tudo semelhante a raça humana

É primordial reconhecer que o tema dos dois primeiros capítulos de Hebreus é a pessoa de Cristo, especificamente no que respeita a sua natureza e substância. Em Filipenses 2:5-8, vemos a Cristo em relação com Deus e com o homem, fazendo particular referência a sua natureza e forma. “Haja, pois, em vós o mesmo sentir que houve também em Cristo Jesus: o qual, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação o ser igual a Deus, mas, esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens, e achado na condição de homem, se humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz”.

Quando Jesus se esvaziou a si mesmo, se fez homem: e Deus se revelou no homem. Quando Jesus se esvaziou a si mesmo, por um lado se revelou o homem, e por outro lado se revelou Deus. Assim, Nele, ambos, Deus e o homem, se encontraram em paz, e foram um: “porque Ele é nossa paz, que de ambos (Deus e o homem) fez um,...dirimindo em usa carne as inimizades,...para edificar de si mesmo os dois em um novo homem, fazendo a paz” Efe. 2: 14,15.

Ele, que foi em forma de Deus tomou a forma de homem.
Ele, que era igual a Deus se fez igual ao homem.
Ele, que era Criador e Senhor se fez criatura e servo. Ele que era em semelhança de Deus se fez em semelhança de homem.
Ele que era Deus, e Espírito, se fez homem, e carne. João 1:1,14.

Não é somente certo quanto à forma, mas é também quanto à substância. Já que Cristo era como Deus em sua própria substância e natureza. Foi feito como os homens, em sua própria substância e natureza.

Cristo era Deus. Se fez homem. E quando se fez homem, foi tão realmente homem, como era realmente Deus.

Se fez homem a fim de poder redimir o homem.

Veio ao homem exatamente onde o homem estava, para trazer o homem onde Ele estava e está.

E com o objetivo de redimir o homem do que este é, foi feito o que é o homem.

O homem é carne. Gen. 6:3; João 3:6. “E o verbo foi feito carne”. João 1:14; Heb. 2:14.
O homem está debaixo da lei. Rom. 3:19. Cristo foi “feito súdito da lei”. Gal. 4:4.>
O homem esta debaixo da maldição. Gal. 3:10; Zac. 5: 1-4. Cristo foi “feito por nós maldição”. Gal. 3:13.

O homem está vendido à sujeição de pecado (Rom. 7:14), e carregado de maldade. Isa. 1:4. E “Jeová carregou Nele o pecado de todos nós”. Isa. 53.6

O homem é um “corpo de pecado”. Rom. 6:6. E Deus o “fez pecado por nós”. 2 Cor. 5:21. Assim, literalmente, “devia ser em tudo semelhante aos irmãos”. Ainda assim, não devemos esquecer jamais, deve ficar fixo na mente e no coração para sempre, que nada do que é relativo à humanidade, carne, pecado e maldição que foi feito, partia de sí mesmo, nem teve sua origem em nenhuma natureza ou falta próprias. Tudo o que foi citado, “foi feito”. Tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens. E em tudo isso, Cristo foi feito o que anteriormente não era, a fim de que o homem possa ser, agora e para sempre, aquilo que não é.

Cristo era o filho de Deus. Se fez o filho do homem, para que os filhos dos homens pudessem converter-se em filhos de Deus. Gal. 4:4, 1 João 3:1.

Cristo era Espírito. 1 Cor. 15:44. Se fez carne com o objetivo de que o homem, que é carne, possa ser feito espírito. João 3:6; Rom. 8:8-10.

Cristo, cuja natureza era divina, se fez participante da natureza humana, para que nós, que temos natureza humana, sejamos “feitos participantes da natureza divina”. 2 Ped 1:4.

Cristo, que não conheceu pecado, foi feito pecado, a mesma pecaminosidade do homem, para que nós, que não conhecemos a justiça, pudéssemos ser feitos justiça, a mesma justiça de Deus.

Do mesmo modo que a justiça de Deus, a qual em Cristo é feito homem, é justiça real, assim, o pecado do homem, que Cristo foi feito na carne, era pecado real.

Tão certamente como nossos pecados, quando estão sobre nós, são pecados reais, quando estes pecados foram postos sobre Ele, passaram a ser pecados reais.

Tão certamente como a culpa está ligada a estes pecados, e a nós, por causa destes pecados, quando estão sobre nós, assim também essa culpa esteve ligada a estes mesmos pecados nossos, e a Ele por causa dos mesmos, quando foram postos sobre Sí.

Da mesma maneira que estes pecados nos produziam um sentido real de condenação e desânimo em razão de sua plena compreensão da culpabilidade de tais pecados, assim, a culpa, a condenação, a desolação causada pelo conhecimento do pecado, foram sua parte, foram um feito em sua experiência consciente, tão real como o sejam na vida de qualquer pecador que jamais tenha existido na terra. E esta suprema verdade traz a toda alma pecadora a constatação gloriosa de que “a justiça de Deus”, e o descanso, a paz, o gozo desta justiça, são um feito na experiência consciente do crente em Jesus neste mundo, de uma forma tão real como o sejam na vida de todo ser santo que jamais habitasse no céu.

Aquele que conhecia a amplitude da justiça de Deus, adquiriu também o conhecimento da profundidade dos pecados da humanidade. Conhece o horror da profundidade dos pecados dos homens, tanto como a glória das alturas da justiça de Deus. E por esse “seu conhecimento, justificará meu servo justo a muitos”. Isa. 53:11.

Feito “em tudo” como nós, foi em todo ponto como o “somos nós”. Tão plenamente foi isso certo, que pode dizer aquilo que também nós devemos reconhecer. “Não posso eu de mim mesmo fazer nada”. João 5:30.

Foi inteiramente certo que nas debilidades e enfermidades da carne – a nossa, que Ele tomou – era como o homem sem Deus e sem Cristo, já que é somente sem Ele que o homem não pode fazer nada. Com Ele, e através dele, está escrito que “tudo posso”. Mas dos que estão sem ele, lemos: “sem mim, nada podeis fazer”. João 15:5.

Portanto, quando disse de Si mesmo “não posso de mim mesmo fazer nada”, isto assegura de uma vez por todas que na carne – devido ao fato de que Ele tomou todas nossas enfermidades; devido a nossa pecaminosidade hereditária e efetiva, que lhe foi depositada e comunicada – foi por si mesmo, nesta carne, exatamente como o homem que, na enfermidade da carne, está carregado de pecados, efetivos e hereditários, e sem Deus. E essa debilidade, com a carga dos pecados, e desvalido como estamos nós, na fé divina exclamou: “Eu confiarei Nele”. He. 2:13.

Jesus “veio buscar e salvar o que se havia perdido”. E para isso, veio aos perdidos onde estão. Se contou entre os perdidos. “foi contado entre os perversos”. Foi “feito pecado”. E desde a posição da debilidade e enfermidade do perdido, confiou em Deus, que o livraria e salvaria. Carregado com os pecados do mundo, e tentado em tudo como nós, esperou e confiou em que Deus o salvaria de todos estes pecados, e que o guardaria sem queda. Sal. 69:1-21; 71:1-20; 22:1-22; 31:1-5.

Essa é a fé de Jesus. Esse é o ponto em que a fé de Jesus alcança o homem perdido e pecador, para auxiliá-lo. Porque se demonstra plenamente que não há um homem em todo o mundo, para quem não haja esperança em Deus: ninguém tão perdido que não possa ser salvo confiando em Deus, nessa fé de Jesus. E essa fé de Jesus pela que, no lugar dos perdidos, Ele esperou e confiou em Deus para salvá-lo de pecado, e para guardá-lo de pecar – essa vitória sua é a que tem trazido a fé Divina a todo homem no mundo: por ela todo homem pode esperar em Deus e confiar Nele, e pode achar o poder de Deus para livrá-lo do pecado e guardá-lo de pecar. A fé que Ele exerceu, e pela qual obteve a vitória sobre o mundo, a carne e o diabo, essa fé, é o dom gratuito a todo homem perdido. E assim, “ esta é a vitória que vence o mundo, nossa fé”. É desta fé que Jesus é o autor e consumador.

Essa é a fé de Jesus, que se dá ao homem. É a fé de Jesus que agora, no tempo da proclamação da mensagem do terceiro anjo, deve ser recebida e guardada por aqueles que serão livrados da adoração da “besta e sua imagem”, e capacitados para guardar os mandamentos de Deus. Essa é a fé de Jesus a que se referem as palavras finais da mensagem do terceiro anjo: “aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus, e a fé de Jesus”.

E agora, a suma acerca do que se tem dito é: “Temos tal sumo sacerdote”. O conteúdo no capítulos primeiro e segundo de Hebreus é o fundamento preliminar e básico de seu sumo sacerdócio. “Pelo qual, devia ser em tudo semelhante aos irmãos, para vir a ser misericordioso e fiel pontífice no que é para com Deus, para expiar os pecados do povo. Porque no que Ele mesmo padeceu sendo tentado, é poderoso para socorrer aos que são tentados”. Heb. 2: 17,18.

Qualificações adicionais de nosso Sumo Sacerdote

Qualificações adicionais de nosso Sumo Sacerdote

Tal é o tema dos dois primeiros capítulos de Hebreus. E assim começa o terceiro. Melhor dito, assim continua o grande tema no capítulo seguinte, com a maravilhosa exortação. “Por tanto, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai ao Apóstolo e pontífice de nossa profissão, Cristo Jesus, o qual é fiel ao que o constituiu.” Havendo apresentado a Cristo na carne, tal como foi feito “em tudo” como os filhos dos homens, e como nosso parente de sangue mais próximo, nos convida agora a considerá-lo em sua fidelidade, na situação descrita.

O primeiro Adão não foi fiel. Este segundo Adão “é fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés sobre toda sua casa . Porque de tanto maior glória que Moisés este é declarado digno, quanto tem maior dignidade que a casa o que a fabricou. Porque toda casa é edificada por alguém; mas o que criou todas as coisas é Deus. E Moisés na verdade foi fiel sobre toda sua casa, como servo, para testificar o que se havia de dizer. Mas Cristo como Filho, foi fiel sobre sua casa; a qual casa somos nós, se até o fim mantivermos firme a confiança e a glória da esperança”.

Seguidamente se cita a Israel, que saiu do Egito, e não permaneceu fiel; que deixou de entrar no repouso do Senhor, porque não creu Nele. Então, a esse respeito, se nos faz a exortação: “temamos, pois, que ficando ainda a promessa de entrar em sua repouso, aconteça que algum de nós fiquemos de fora. Porque também a nós se nos tem pregado como a eles; mas não lhes aproveitou o ouvir da palavra aos que a ouviram, porque lhes faltou a fé. Entremos então no repouso os que temos crido”. Que temos crido Naquele que se deu a sí mesmo por nossos pecados.

Entramos no repouso quando se nos perdoam todos os pecados ao crer Nele, que foi fiel em todo dever e ante toda tentação da vida. Entramos também em seu repouso, e permanecemos aí ao fazer-nos participantes de sua fidelidade, na qual e pela qual nós também seremos fiéis ao que nos constituiu. Considerando a Ele – “Pontífice de nossa profissão” – em sua fidelidade, chegaremos sempre a conclusão de que “não temos um Pontífice que não se possa compadecer delas. E a forma na que se pode compadecer, e se compadece delas, é que foi “tentado em tudo segundo nossa semelhança”. Não existe um só ponto em que alguma alma possa ser tentada, sem que Ele não tenha sido tentado exatamente igual. Sentiu a tentação tão verdadeiramente como qualquer alma humana possa senti-la. Mas ainda que foi tentado em tudo como nós, e sentindo o poder da tentação de uma forma tão real como cada um de nós, em tudo isso foi fiel, e passou através de tudo “sem pecado”. E pela fé Nele – em sua fidelidade, em sua fé perfeita – toda alma pode enfrentar toda tentação e passar através dela sem pecar. Essa é nossa salvação; que foi feito carne como homem, e devia ser em tudo semelhante aos irmãos, e ser tentado em tudo segundo nossa semelhança, “para vir a ser misericordioso e fiel pontífice” no que é para com Deus. E isso, não somente “para expiar os pecados do povo”, mas também para “socorrer”, auxiliar, acudir, ajudar e libertar do sofrimento – “aos que são tentados”. Ele é nosso misericordioso e fiel Sumo Sacerdote para socorrer-nos, para guardar-nos sem cair ao sermos tentados, livrando-nos assim de cair no pecado. Sustenta-nos, de tal maneira para que não caiamos na tentação, e sim, para que a conquistemos, e nos elevemos vitoriosamente sobre ela, não pecando.

“Portanto, tendo um grande Sumo sacerdote, que penetrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, retenhamos nossa profissão”. Heb. 4:14. E também por esta razão, acheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para alcançar misericórdia, e achar graça para oportuno socorro”.

Continuamente, ao convidar-nos a considerar a nosso Sumo Sacerdote em sua fidelidade, lemos que “todo pontífice, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens no que a Deus toca, para que ofereça presentes e sacrifícios pelos pecados: Que se compadece dos extraviados e ignorantes, pois que Ele também está rodeado de fraqueza”. Heb. 5:1,2.

E é por isso que, a fim de poder ser um misericordioso e fiel Sumo Sacerdote no que é para com Deus, e a fim de levar à glória a muitos filhos, convinha que, mesmo sendo Capitão da salvação deles, Ele também estivesse rodeado de fraquezas, que padecesse sendo tentado, que fosse “varão de dores, experimentado em quebranto”. Assim, devia ser em tudo conhecedor da experiência humana, para que se possa compadecer dos ignorantes e extraviados , verdadeiramente. Em outras palavras, a fim de poder vir a ser misericordioso e fiel pontífice no que é para com Deus, teve que ser feito consumado em aflições.

“Ninguém toma para si a honra, senão o que é chamado de Deus, como Arão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo fazendo-se sacerdote, mas o que lhe disse: Tu és Meu Filho, hoje te gerei; Como também disse em outro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. O qual nos dia de sua carne, oferecendo rogos e súplicas com grande clamor e lágrimas ao que lhe podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. E ainda que era Filho, pelo que padeceu aprendeu a obediência; e consumado, veio a ser a causa de eterna salvação a todos os que lhe obedecem; nomeado de Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedeque”. Heb. 5:4-10. “E porquanto não foi sem juramento, (porque os outros, certamente foram feitos sacerdotes sem juramento, mas este, com juramento pelo que lhe disse: Jurou o Senhor e não se arrependerá: Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedeque): tanto de melhor testamento é feito fiador Jesus”.

Assim, por sobre os demais, Jesus foi constituído sacerdote por juramento de Deus. Portanto, “temos tal Pontífice”.

Ademais, “E os outros, certamente foram muitos sacerdotes, porque pela morte não podiam permanecer. Mas este, porquanto permanece para sempre, tem um sacerdócio imutável” Heb 7:20-24. É constituído sacerdote para sempre, mediante juramento de Deus. É também feito sacerdote “segundo a virtude de uma vida indissolúvel” Heb. 7:16. Como conseqüência, “permanece para sempre”, e por isso mesmo “tem um sacerdócio imutável”. E devido a todo o anterior, “pode também salvar eternamente aos que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”. Heb. 7:25. “Temos tal Pontífice.”

E “tal pontífice nos convinha: santo, inocente, limpo, separado dos pecadores, e feito mais sublime que os céus; que não tem necessidade cada dia, como os outros sacerdotes, de oferecer primeiro sacrifícios por seus pecados, e depois, pelos do povo: porque isso fez de uma só vez, oferecendo-se a si mesmo. Porque a lei constitui sacerdotes e homens fracos; mas a palavra de juramento, depois da lei, constitui o filho, feito perfeito para sempre”. Heb. 7:26-28.

A suma

A suma

“Assim que, a suma do que temos dito é: Temos tal Pontífice”.

De que é esta declaração o resumo, ou suma?

De que aquele que era superior aos anjos, como Deus, foi feito inferior a eles, como homem.

De que aquele que era da natureza de Deus, foi feito da natureza do homem.

De que aquele que era em todas as coisas como Deus, foi feito em todas as coisas como o homem.

De que como homem foi tentado em todo ponto, como o é o homem, e não pecou jamais; mas sim, que foi em tudo fiel ao que o constituiu.

De que como homem, foi tentado em todo ponto como o somos nós, podendo compadecer-se de nossas fraquezas, sendo aperfeiçoado por aflições para vir a ser misericordioso e fiel Pontífice; e isso, pelo chamado de Deus.

De que, segundo a virtude de vida indissolúvel (eterna), foi constituído Sumo Sacerdote.

E de que o foi por juramento de Deus.

Tais são os pontos chaves que faz a palavra de Deus, das que a “suma” ou conclusão, é: “Temos tal Pontífice”.

Ainda assim, isso é somente uma parte da “suma”, já que a declaração completa de tal resumo continua nos termos: “Temos tal pontífice que se assentou a destra do trono da Majestade nos céus; ministro do santuário e verdadeiro tabernáculo que o Senhor mesmo erigiu, e não o homem. Tanto como diferentes são as coisas feitas por Deus, em relação às feitas pelo homem”.

Em Hebreus 9 se nos apresenta uma breve e incomparável descrição deste “santuário terrenal”, com seu ministério, assim como o resumo de seu significado. Custa imaginar uma descrição mais afortunada; portanto, citaremos os versículos 2 ao 12: “Porque o tabernáculo foi feito;" o primeiro, no qual estavam as lâmpadas, e a mesa, e os pães da proposição; o que chamam o Santuário. Depois do segundo véu estava o tabernáculo, que chamam o lugar Santíssimo; o qual tinha um incensário de ouro, e a arca do pacto coberta de todas as partes ao redor do ouro; na que estava uma urna de outro que continha o maná, e a vara de Arão que floresceu, e as tábuas do pacto; E sobre ela querubins de glória que cobriam o propiciatório; das quais coisas não se pode agora falar em particular. E estas coisas assim ordenas, no primeiro tabernáculo sempre entravam os sacerdotes para fazer os ofícios de culto; Mas no segundo, somente o pontífice uma vez por ano, não sem sangue, o qual oferece por si mesmo, e pelos pecados de ignorância do povo; Dando nisto a entender o Espírito Santo, que ainda não estava descoberto o caminho para o santuário, enquanto o primeiro tabernáculo estivesse em pé. O qual era figura daquele tempo presente, no qual se ofereciam presentes e sacrifícios que não podiam aperfeiçoa-lo, quanto à consciência, ao que servia com eles; Consistindo somente em comidas e bebidas, e em diversas purificações, e ordenanças acerca da carne, impostas até o tempo da correção. Mas estando presente Cristo, pontífice dos bens que viriam, por mais amplo e perfeito tabernáculo, não feito de mãos, a saber, não desta criação; e nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção.

Este santuário não era senão uma figura prevista para “aquele tempo presente”. Nele, os sacerdotes e sumos sacerdotes ofereciam e ministravam ofertas e sacrifícios. Mas todo este sacerdócio, ministério, oferta e sacrifício, assim como o próprio santuário, simplesmente “era figura daquele tempo presente”, já que “não podiam fazer perfeito, quanto à consciência, o que servia com eles”. O próprio santuário e o tabernáculo não eram senão uma figura do santuário e o verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem. O sumo sacerdote daquele santuário não era senão uma figura de Cristo, verdadeiro Sumo Sacerdote do santuário e verdadeiro tabernáculo. O ministério do sumo sacerdote do santuário terrenal não era outra coisa que uma figura do ministério de Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote “que se assentou à direita do trono da Majestade nos céus, ministro do santuário, e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem”.

As ofertas do sacerdócio, no ministério do santuário terrenal, não eram senão figura da oferta de Cristo, o verdadeiro Sumo Sacerdote, em seu ministério no santuário e verdadeiro tabernáculo. Assim, Cristo constituía a verdadeira substância e significado de todo o sacerdócio e serviço do santuário terrenal; se considerar-mos alguma parte do sacerdócio ou serviço como alheia a esse significado, deixa imediatamente de ter sentido. E tão certamente como Cristo é o verdadeiro Sacerdote dos cristãos, representado em figura no sacerdócio levítico; assim certamente, o santuário de que Cristo é ministro, é o verdadeiro santuário para todo cristão, do qual era figura o santuário terrenal, na dispensação levítica. Diz pois a escritura: “se (Cristo) estivesse sobre a terra, nem ainda seria sacerdote, havendo ainda os sacerdotes que oferecem as ofertas segundo a lei, os quais servem de figura e sombra das coisas celestiais, como foi respondido a Moisés quando deveria fazer o tabernáculo: Vê, diz, faz todas as coisas conforme o que te foi mostrado no monte” Heb. 8:4,5.

“Foi, pois necessário que as figuras das coisas celestiais fossem purificadas com estas coisas, mas as mesmas coisas celestiais com melhores sacrifícios que estes. Porque não entrou Cristo no santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, senão, no mesmo céu para apresentar-se agora por nós na presença de Deus”. E foi “no mesmo céu”, na dispensação cristã, onde foi visto o trono de Deus, o altar de ouro e um anjo com o incensário de ouro, oferecendo incenso com as orações dos santos, “e a fumaça do incenso subiu da mão do anjo diante de Deus, com as orações dos santos”. Apoc 4:5; 8:2-4. Também neste mesmo tempo, se viu “no mesmo céu”, o templo de Deus: “E o templo de Deus foi aberto no céu, e a arca de seu testemunho foi vista em seu templo”. Apoc. 11: 19, 15:5-8; 16:1. Assim mesmo, se viram aí “sete lâmpadas de fogo...ardendo diante do trono”. Apoc. 4:5. Aí foi visto também um semelhante ao filho do homem, vestido de roupas sumo sacerdotais. Apoc. 1:13.

Existe, portanto, um santuário cristão, do qual era figura o primeiro santuário, tão certamente como existe um sumo sacerdócio cristão, do que era figura o sumo sacerdócio terrenal. E Cristo, nosso Sumo Sacerdote, exerce um ministério neste santuário cristão, da mesma forma que havia um ministério no sacerdócio terrenal, exercido no santuário desta terra. E “a suma do que temos dito é: Temos tal pontífice que se assentou à direita do trono da Majestade nos céus; Ministro do santuário, e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem."

E eu habitarei entre eles

E eu habitarei entre eles

Quando Deus deu a Israel as diretrizes originais para a construção do santuário que seria figura para aquele tempo presente, disse: “E me farão um santuário, e eu habitarei entre eles”. Ex. 25:8. O objetivo do santuário era que Ele pudesse habitar entre eles. Seu propósito fica mais plenamente revelado nos seguintes textos. “E aí testificarei de Mim aos filhos de Israel, e o lugar será santificado com minha glória. E santificarei o tabernáculo do testemunho e o altar: santificarei também a Arão e a seus filhos, para que sejam meus sacerdotes. E habitarei entre os filhos de Israel, e serei seu Deus. E conhecerão que eu sou Jeová seus Deus, que os tirei da terra do Egito, para habitar no meio deles. Eu, Jeová, seu Deus. Ex. 29:43-46; Lev. 26:11,12.

O propósito não era simplesmente que pudesse habitar no sentido de assentar o santuário no meio do acampamento de Israel. Esse foi o grande equívoco de Israel em relação ao santuário, de tal forma que perdeu quase por completo o verdadeiro significado do mesmo. Quando o santuário foi erigido e situado no meio do acampamento de Israel, muitos dos filhos de Israel pensaram que isto bastava. Supuseram que nisto consistia o que “Deus fosse habitar no meio deles”. É verdade que através do Shekinah, Deus morava no santuário. Mas o edifício do santuário com seu esplêndido ornamento, assentado no meio do acampamento, não consistia o todo do santuário. Além da decoração magnífica, estavam os sacrifícios e ofertas do povo; e os sacrifícios e ofertas em favor do povo. Também os sacerdotes no serviço contínuo; e o sumo sacerdote em seu sagrado ministério. Sem tudo isso, o santuário haveria sido para Israel pouco mais que algo vazio, ainda que o Senhor morasse aí. E qual era o significado maior e propósito destas coisas? Vejamos: Quando algum dos israelitas havia “feito algo contra algum dos mandamentos de Jeová em coisas que não se deviam fazer” sendo assim “culpado”, levava “de sua própria vontade” seu cordeiro sacrifical à porta do tabernáculo. Antes que este fosse oferecido em sacrifício, o israelita que o havia trazido colocava suas mãos sobre a cabeça da vítima e confessava seus pecados “e ele o aceitará para o expiar”. Então, o que havia trazido a vítima e confessado seus pecados, a degolava. O sangue se recolhia em uma taça. Parte do sangue “a espargirão ao redor do altar, o qual está à porta do tabernáculo” (altar dos holocaustos e ofertas ardentes); outra parte do sangue se colocava “sobre os chifres do altar do perfume aromático, que está no tabernáculo do testemunho”, e parte dele se espargia “sete vezes diante de Jeová, no véu do santuário”; o resto se jogava ao pé do altar do holocausto, que está à porta do tabernáculo do testemunho. O cordeiro mesmo se queimava sobre o altar dos holocaustos. E de todo esse serviço se conclui: “e fará o sacerdote expiação de seu pecado que terá cometido, e será perdoado”. O serviço era similar no caso do pecado e confissão do conjunto da congregação. Oficiava-se assim também um serviço semelhante de forma contínua, pela manhã e pela tarde, em favor de toda a congregação. Mas seja que os serviços fossem de caráter individual, ou de caráter geral, a conclusão vinha sempre a ser a mesma. “e lhe fará o sacerdote expiação de seu pecado que houver cometido, e será perdoado”. Lev. Cap. 1 a 5.

O ciclo do serviço do santuário se completava anualmente. E o dia no qual se alcançava a plenitude do serviço, o décimo do mês sétimo, era especialmente “o dia da expiação”, ou a purificação do santuário. Nesse dia se concluía o serviço no lugar santíssimo. A esse dia se refere a expressão “uma vez ao ano”, quando “somente o pontífice” (ou Sumo Sacerdote) entrava no “lugar santíssimo”, o santo dos santos. E do sumo sacerdote e seu serviço neste dia, está escrito: “E expiará o santíssimo, e o tabernáculo do testemunho; expiará também o altar, e aos sacerdotes, e a todo o povo da congregação”. Lev. 16:2-34, Heb. 9:2-8. Assim, os serviços do santuário no oferecimento dos sacrifícios, o ministério dos sacerdotes, e particularmente dos sumo sacerdotes, tinha por fim fazer expiação, perdoar e excluir os pecados do povo. Por causa do pecado e a culpa, por haver feito “algo contra algum dos mandamentos de Jeová, teu Deus, sobre coisas que não se devem fazer”, era necessário fazer expiação ou reconciliação, e obter perdão. O termo expiação ou reconciliação, contém a idéia de “unidade de mente”. O pecado e a culpa os haviam separado de Deus. Mediante esses serviços se reconciliavam (feitos um) com Deus. Perdoar significa “dar por”. Perdoar o pecado, é dar pelo pecado. O perdão dos pecados vem unicamente de Deus. Que é o que Deus dá? Que é o que deu pelo pecado? Deu a Cristo, e Cristo “se deu a sí mesmo por nossos pecados”. Gal. 1:4; Efe. 2:12-16; Rom. 5:8-11.

Portanto, quando um indivíduo ou toda a congregação de Israel haviam pecado e desejavam o perdão, todo o plano e problema do perdão, reconciliação e salvação, se desenrolavam ante a presença deste. O sacrifício que se oferecia, o era pela fé no que Deus já havia realizado ao entregar seu Filho pelo pecado. Era nesta fé que Deus aceitava aos pecadores, e estes recebiam a Cristo no lugar de seu pecado. Eram assim reconciliados com Deus, ou feitos um com ele (expiação). É assim que Deus moraria “no meio deles”; era assim que habitaria em cada coração e em cada vida, para converter esta em algo “santo, inocente, limpo e separado dos pecadores”. E o fato de assentar o tabernáculo no meio do acampamento de Israel era uma ilustração, uma lição objetiva e uma evocação da verdade de que Ele habitaria em cada indivíduo. Efe. 3:16-19. Alguns dentre os da nação, em toda época, viram no santuário esta grande verdade salvadora. Mas, como um corpo, ao passar o tempo, Israel perdeu este conceito; e detendo-se unicamente no pensamento de que Deus habitava no tabernáculo terrenal, em meio ao acampamento, deixaram de alcançar o gozo da própria presença pessoal de Deus morando em suas vidas individuais. Em consequência disso, sua adoração se transformou unicamente formalista e de caráter externo, em vez do caráter interior e espiritual que deveria ser. Desta forma, suas vidas foram degeneradas e carentes de santidade; e assim, aqueles que saíram do Egito perderam a grande benção que Deus tinha para eles, e “morreram no deserto”. Heb. 3:17-19.

Depois de haver entrado na terra de Canaã, o povo cometeu erro idêntico. Colocaram sua dependência no Senhor somente desde que morando no tabernáculo, e não permitiram que o tabernáculo e seu ministério fossem os meios pelos quais o Senhor morasse neles mesmos pela fé. Consequentemente, tudo o que fizeram foi que suas vidas progrediram na maldade, de forma que Deus permitiu que o tabernáculo fosse destruído, e que os pagãos tomassem cativa a arca de Deus (Jer. 7:12; 1 Sam. 4:10-22) a fim de que o povo pudesse aprender a ver, encontrar a Deus e adorá-lo, individualmente. Seria assim que experimentariam a morada de Deus com eles de forma individual.

Depois de Israel ficar por uns cem anos sem o tabernáculo e seu serviço, Davi o restaurou, e foi erigido o grande templo que Salomão edificou. Mas novamente se foi perdendo de vista seu verdadeiro propósito. O formalismo, com a maldade que o acompanha, foram se incrementando gradativamente, até que o Senhor se viu compelido a exclamar, no tocante a Israel: “Aborreci, abominei vossas solenidades, e não me dão bom cheiro vossas assembléias. E se me oferecerdes holocaustos e vossos presentes, não os receberei; nem olharei aos vossos sacrifícios pacíficos. Tirai de mim a multidão de vossos cânticos, pois não escutarei os acordes de teus instrumentos. Antes, corra o juízo como as águas, e a justiça como impetuoso arroio”. Amós 5:21-24.

Também em relação com Judá, foi compelido a um clamor similar, que Isaías assim expressa: “Príncipes de Sodoma, ouvi a palavra de Jeová; escutai a lei de nosso Deus, povo de Gomorra. Para que me servem, diz Jeová, a multidão de vossos sacrifícios? Estou farto de holocaustos de carneiros, e da gordura de vossos animais: não quero sangue de bois, nem de ovelhas, nem de cabritos. Quem pediu isto de vossas mãos, quando vindes a vos apresentar diante de mim, para pisar os meus átrios? Não tragais mais presentes vãos; o perfume me é abominação, lua nova e Sábado, o convocar assembléias, não as posso sofrer; são iniquidade vossas solenidades. Vossas luas novas e vossas solenidades tem me aborrecido a alma, me são pesadas, estou cansado de as sofrer. Quando estenderdes vossas mãos, eu esconderei meus olhos: mesmo quando multiplicardes a oração, Eu não ouvirei; cheias estão de sangue vossas mãos. Lavai-vos, limpai-vos; tirai a iniquidade de vossas obras diante de meus olhos; deixai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; buscai juízo, restituí o roubado, ouvi o direito do órfão, amparai a viúva. Então vinde, diz Jeová, e argüi-me: ainda que vossos pecados sejam como a escarlata, se tornarão brancos como a neve, se forem vermelhos como o carmesim, virão a ser como a branca lã. Isa. 1:10-18.

No entanto, não se deu ouvidos a Seus rogos. Portanto, Israel foi levado cativo e sua terra desolada por causa de sua maldade. Igual sorte pendia sobre Judá. E esse perigo de Judá provinha do mesmo grandioso tema que o Senhor havia se esforçado sempre por ensinar à nação, e que esta não havia ainda aprendido; haviam se agarrado ao templo, e ao fato de que a presença de Deus habitasse neste templo, como o grande fim, em lugar de compreender como o meio para alcançar o fim, que consistia em que através do templo e seu ministério, proporcionaria perdão e reconciliação. Aquele que morava no templo, viria fazer morada neles mesmos. Assim, o Senhor clamou por seu povo uma vez mais pela boca de Jeremias, a fim de salvá-los deste erro, tornando assim possível que viessem e recebessem a grande verdade do genuíno significado e propósito do templo e seu serviço. Disse pois: “Eis aqui, vós que confiais em palavras de mentira, que não se aproveitam: Furtando, matando, adulterando e jurando falso, incensando a Baal, e andando após deuses estranhos que não conhecestes. Vireis e se colocareis diante de mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e direis: Somos livres, podemos fazer todas estas abominações? É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma casa de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o Senhor. Mas ide agora ao meu lugar, que estava em Silo...que os tirarei da Minha presença como tirei a todos vossos irmãos, a toda a geração de Efraim. Tu pois, não ores por este povo, nem levantes por eles clamor nem oração, nem me rogues; porque não te ouvirei...Oxalá minha cabeça se tornasse em águas, e meus olhos fontes de águas, para que chore dia e noite os mortos da filha de meu povo! Oxalá tivesse no deserto uma estalagem de caminhantes, então eu deixaria o meu povo e me apartaria dele porque todos eles são adúlteros, e um bando de aleivosos. E estendem a sua língua, como se fosse o seu arco para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade, porque avançam de malícia em malícia, e a mim não conhecem, diz o Senhor”. Jer. 7:8-16; 9:1,3.

Quais eram especificamente as “palavras de mentira” nas que se fiava o povo? Hei-las aqui: “Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: Templo de Jeová, templo de Jeová, templo de Jeová é este”. Jer. 7:4. É perfeitamente manifesto que o povo, se bem entregue às formas de adoração e do serviço do templo, o viveu meramente como formas, perdendo completamente o propósito do templo e seus serviços, que não era outro que o que Deus pudesse reformar e santificar a vida do povo, morando individualmente neles. E havendo perdido tudo isso, a maldade de seus corações não fez senão manifestar-se cada vez mais. É por essa razão que todos seus sacrifícios, adoração e pregações vieram a ser uma ruidosa mentira, tanto quanto em seus corações e vidas careciam de reforma e santidade.

Por tudo isso, “palavra de Jeová a Jeremias, dizendo: Põe-te à porta da casa de Jeová, e prega ali esta palavra, e diz: Ouvi as palavras de Jeová, todo Judá, os que entrais por estas portas para adorar a Jeová. Assim tem dito Jeová dos exércitos, Deus de Israel: Melhorai vossos caminhos e vossas obras, e Eu os farei morar neste lugar. Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: Templo de Jeová, templo de Jeová, templo de Jeová é este. Mas se melhorardes vossos caminhos e vossas obras; se com exatidão fizerdes o direito entre o homem e seu próximo, não oprimindo o peregrino, ao órfão, a viúva, nem neste lugar derramardes sangue inocente, nem andando após deuses estranhos para vosso mal; Vos farei morar neste lugar, na terra que dei a vossos pais para sempre” Jer. 7:1-7.

Ao invés de permitir que se cumprisse neles o grande propósito de Deus mediante o templo e seus serviços, o qual Deus em sua misericórdia havia estabelecido entre eles, e lhes ensinasse como realmente Ele ali habitaria morando em seus corações e santificando suas vidas, o que fizeram foi excluir este verdadeiro sentido do templo e seus serviços, pervertendo-o totalmente ao concebê-lo com o falso propósito de sancionar a maldade abjeta e encobrir a mais profunda e insondável carência de santidade. Para um sistema tal, não existia outro remédio que a destruição. Em conseqüência, a cidade foi sitiada e tomada pelos pagãos. O templo, “a casa de nosso santuário e nossa glória” foi destruída. Havendo se convertido a cidade e o templo em um montão de ruínas enegrecidas, o povo foi levado cativo a Babilônia, onde em seu pesar e sentimento profundo de imensa perda, buscaram, encontraram e adoraram ao Senhor de tal forma que significou uma reforma em suas vidas, ao ponto que, se houvesse ocorrido enquanto o templo estava em pé, este teria podido permanecer para sempre. Sal. 137:1-6.

Deus tirou de Babilônia a um povo humilde e reformado. Seu santo templo se reedificou e os serviços foram restaurados. Novamente o povo habitou em sua cidade e em sua terra. Ma uma vez mais se reproduziu a apostasia. Seguiu um curso idêntico até que, quando Jesus, o grande centro do templo e seus serviços, veio aos seus, continuava prevalecendo o mesmo velho estado de coisas. Mat. 21:12,13; 23:13-32. Do interior de seu coração, foram capazes de assediá-lo e perseguí-lo até a morte, enquanto que externamente se julgavam santos, de tal forma que se abstiveram de traspassar o pórtico do pretório de Pilatos, “para não se contaminarem”. João 18:28.

E o chamado do Senhor ao povo continuava sendo o mesmo que na antigüidade: deviam encontrar em suas próprias vidas pessoais o significado do templo e seus serviços, e ser salvos assim da maldição que havia perseguido a nação ao longo de sua história, por causa do mesmo grande erro que eles estavam repetindo. Foi por isso que Jesus, estando certo dia no templo, disse à multidão que estava presente: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei. Disseram os judeus: Em quarenta e seis anos foi este templo edificado, e tu em três dias o levantarás? Mas Ele falava do templo do corpo”. João 2:19-21. Quando Jesus, no templo, falou estas palavras às pessoas, referindo-se ao “templo de seu corpo”, estava em realidade tentando, como o havia feito durante toda a história passada deles, que pudessem aperceber-se de que o grande propósito do templo e seus serviços foi sempre que através do ministério e os serviços ali efetuados, Deus pudesse andar e morar neles mesmos, do mesmo modo em que morava no templo; fazendo santa sua habitação neles mesmos, da mesma forma que sua morada no templo, convertia este lugar em um lugar santo; assim, seus corpos seriam verdadeiramente templos do Deus vivente, ao morar e andar com Deus neles. 2 Cor. 6:16; 1 Cor. 3:16, 17; Lev. 26:11, 12; 2 Sam. 7:6,7.

Mesmo assim, nem sequer então compreenderam esta verdade. Não queriam ser reformados. Não queriam que o propósito do santuário se cumprisse neles mesmos; que Deus morasse neles. Rejeitaram Aquele que veio pessoalmente para mostrar-lhes este verdadeiro propósito e caminho. Portanto, uma vez mais, não houve outro remédio que a destruição. Uma vez mais a cidade foi tomada pelos pagãos. Também o templo, “a casa de nosso santuário e de nossa glória”, foi destruída pelo fogo. Foram novamente levados cativos, e dispersos para sempre, para andar “errantes entre os povos”. Ose. 9:17.

É preciso ressaltar uma vez mais que o santuário terrenal, o templo com seu ministério e serviços como tais, não eram senão uma figura do verdadeiro, que existia então no céu, com seu ministério e serviços. Quando se apresentou a Moisés pela primeira vez o conceito do santuário, o Senhor lhe disse: “Vê, e faz conforme ao modelo que viste, que te foi mostrado no monte”. Heb.8:5, Ex. 25:40, 26:30, 27:8. O santuário na terra era, pois, uma figura do verdadeiro, no sentido de ser uma representação do mesmo. O ministério e os serviços terrenos, eram “figuras do verdadeiro”, no sentido de ser um “modelo”, “as figuras das coisas celestiais”. Heb. 9:23,24.

O verdadeiro santuário do qual o terreno era figura, o original de que esse era modelo, existia então. Mas nas trevas e confusão do Egito, Israel havia perdido a clara noção disto, assim como tantas outras coisas que haviam estado claras para Abraão, Isaque e Jacó; e mediante esta lição, Deus lhes proporcionaria o conhecimento do verdadeiro santuário. Não era, portanto, uma figura no sentido de ser um tipo de algo que viria, e que não existia ainda; e sim, uma figura no sentido de ser uma lição objetiva e representação visível daquilo que existia, mas era invisível, a fim de exercitá-los em uma experiência de fé e verdadeira espiritualidade que lhes capacitasse a ver o invisível.

E por meio de tudo isso, Deus lhes estava revelando, assim como a todo o povo para sempre, que é pelo sacerdócio, ministério e serviço de Cristo no santuário ou templo celestial que Ele mora entre os homens. Estava revelando que nesta fé de Jesus se ministram aos homens o perdão dos pecados e a expiação ou reconciliação, de forma que Deus habita neles e anda em meio deles, sendo Ele seu Deus e eles o seu povo; e são separados para Deus como seus autênticos filhos e filhas para ser edificados em perfeição, no conhecimento de Deus. Ex. 33:15, 16; 2 Cor. 6:16-18; 7:1.

Perfeição

Perfeição

O grande fim e propósito do verdadeiro santuário, sacerdócio e ministério, era que Deus morasse nos corações do povo. Agora, qual era o grande fim e propósito de morar nos corações do povo? A resposta é: perfeição. A perfeição moral e espiritual do adorador.

Consideremos isto: Na conclusão do quinto capítulo de Hebreus, imediatamente depois da declaração “e consumado, veio a ser objeto de eterna salvação a todos os que o obedecem; nomeado por Deus pontífice segundo a ordem de Melquisedeque”, lemos: “Portanto, deixando a palavra do começo na doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito” Heb. 6:1. Ademais, expõe como a perfeição se alcança somente mediante o sacerdócio de Melquisedeque, e explica que foi sempre assim, e que o sacerdócio levítico era somente temporal, e um tipo do sacerdócio de Melquisedeque. Na continuação, tratando do sacerdócio levítico, lemos: “Se pois a perfeição era pelo sacerdócio levítico,... que necessidade havia ainda que se levantasse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse chamado segundo a ordem de Arão?” Heb. 7:11. E também, em relação ao mesmo, “porque a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus” Ver. 19.

A partir dessas declarações inspiradas, é inquestionável que a perfeição do adorador é precisamente o que oferece e provê o sacerdócio e ministério de Cristo.

E não somente isto, ademais, como já foi citado, a respeito da descrição do santuário e seu serviço, se nos indica que “era figura para aquele tempo presente, no qual se ofereciam oferendas e sacrifícios que não podiam tornar perfeito, quanto à consciência o adorador”. Este não poder fazer perfeito o adorador era a grande incapacidade do santuário terreno. Portanto, o grande tema e objetivo final do sacerdócio e ministério de Cristo no verdadeiro santuário é fazer perfeito a quem, pela fé entra nele.

O serviço terreno não podia “fazer perfeito, quanto à consciência, ao que servia”. “Mas estando já presente Cristo, pontífice dos bens que viriam, por mais amplo e mais perfeito tabernáculo, não feito de mãos, e a saber, não desta criação; e não por sangue de bodes nem de bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no santuário, tendo obtido eterna redenção”. Heb. 9:11, 12. Esse santuário, sacerdócio, sacrifício e ministério de Cristo, faz perfeito em eterna redenção a todo aquele que pela fé entra no seu serviço, recebendo assim o que esse serviço tem por fim prover.

“Porque se o sangue de touros e bodes, e a cinza de uma novilha, espargida sobre os imundos, santifica para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, o qual pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mancha a Deus, limpará vossas consciências das obras mortas para que sirvais ao Deus vivo?” O sangue de touros, bodes e a cinza de uma novilha aspergida sobre os imundos, no serviço do santuário levítico terreno, santificava para a purificação da carne, segundo o declara a Palavra. E dado que isto é assim, “quanto mais o sangue de Cristo, o qual pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mancha a Deus”, santifica para a purificação do espírito e “limpará vossas consciências das obras mortas para que sirvais ao Deus vivo?”

Quais são as obras mortas? A própria morte é a conseqüência do pecado. Portanto, as obras mortas são aquelas que levam o pecado em si mesmas. Então, a limpeza da consciência das obras mortas é a purificação total da alma, purificação do pecado, pelo sangue de Cristo, pelo Espírito eterno, para que na vida e obras do crente em Jesus não haja nenhum lugar para o pecado; as obras serão somente obras da fé, e a vida, uma vida de fé. Será desse modo como em pureza e em verdade “sirvais ao Deus vivo”.

A Escritura continua assim: “Porque a lei, tendo a sombra das coisas vindouras, não a imagem exata das coisas, nunca pode, pelos mesmos sacrifícios que se oferecem continuamente a cada ano, tornar perfeitos os adoradores. De outra maneira, cessariam de oferecer-se; porque os que tributam este culto, uma vez limpos, não teriam mais consciência do pecado. Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos, porque é impossível que o sangue de touros e bodes remova pecados.” Heb. 10:1-4

Uma vez mais vemos que se bem que o objetivo de todo o ministério efetuado sob a lei era a perfeição, esta não se conseguia pela realização desse. Todo este serviço não era senão uma figura daquele tempo presente, uma figura do ministério e sacerdócio pelo qual se obtém a perfeição, isto é, o ministério e sacerdócio de Cristo. Os sacrifícios não podiam tornar perfeitos os adoradores. O verdadeiro sacrifício e verdadeiro ministério “do santuário e daquele verdadeiro tabernáculo” faz perfeitos aos que se achegam a ele: e essa perfeição dos adoradores consiste em que não tenham mais “consciência do pecado”.

Mas, posto que o sangue dos bodes e bezerros “não pode tirar os pecados”, não era possível, ainda que estes sacrifícios se oferecessem continuamente ano após ano, purificar os adoradores até o ponto no qual não tivessem mais consciência de pecados. O sangue de touros e de bodes, a cinza de uma novilha aspergida sobre os imundos, santificava para a purificação da carne, mas somente da carne: e inclusive isso não era mais que “figura para aquele tempo presente” do “sangue de Cristo”, que tanto mais purificará aos adoradores, de forma que não tenham mais consciência de pecados.

“Pelo qual, entrando no mundo disse: Sacrifício e oferta não quiseste; antes, corpo me formaste. Então acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro parar estabelecer o segundo” Heb. 10:5-9

Se mencionam aqui duas coisas: o “primeiro” e o “segundo”, ou “último”. Em que estes consistem? Que é o primeiro, e que é o último? As duas coisas citadas são sacrifício, oferta, holocaustos e expiações pelo pecado, tudo isto constitui “o primeiro”: e “tua vontade” (a vontade de Deus) é “o último”. “Tira o primeiro, para estabelecer o último”, isto é, tirou o sacrifício, presente, holocaustos e expiações pelo pecado, e fim de estabelecer a vontade de Deus. E a “vontade de Deus é vossa santificação” e vossa perfeição. I Tes. 4:3; Mat. 5:48; Efe. 4:8, 12, 13; Heb. 13:20, 21. Mas isto não se pode obter mediante os sacrifícios, ofertas, holocaustos e expiações pelo pecado oferecidos sob o sacerdócio levítico. Estes não podiam fazer perfeito, quanto à consciência, o adorador. Não podiam purificar o adorador de tal maneira que não tivessem mais consciência do pecado, pela razão de que o sangue de touros e bodes não pode tirar o pecado.

Portanto, posto que a vontade de Deus é a santificação e a perfeição dos adoradores, que sejam de tal modo purificados que não tenham mais consciência do pecado, e dado que através do serviço e oferendas do santuário terrenal não podiam obtê-lo, Ele tirou tudo isso, para estabelecer a vontade de Deus. “Nesta vontade somos santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas”.

“A vontade de Deus é vossa santificação”. Santificação é a verdadeira observância de todos os mandamentos de Deus. Em outras palavras, a vontade de Deus com respeito ao homem é que a vontade divina encontre perfeito cumprimento nEle. A vontade de Deus está expressa na lei dos dez mandamentos, que “é lei de todo o homem”. A lei é perfeita, e a perfeição de caráter é a perfeita expressão dessa lei na vida do que adora a Deus. Por essa lei vem o conhecimento do pecado, e todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus. Estão destituídos de Sua perfeição de caráter.

Os sacrifícios e o serviço do santuário terrenal não podiam tirar os pecados do homem, portanto, não podiam levá-lo à perfeição. Mas o sacrifício e ministério do verdadeiro Sumo Sacerdote do santuário e verdadeiro tabernáculo, sim o fazem. Tiram completamente todo o pecado. E o adorador é de tal modo purificado que não tem mais consciência de pecados. Mediante o sacrifício, a oferta e o serviço de si mesmo, Cristo aboliu os sacrifícios e as oferendas e serviço que nunca poderiam tirar os pecados, e por Seu perfeito cumprimento da perfeita vontade de Deus, estabeleceu esta última. Nesta “vontade somos santificados mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas”. Heb. 10:10.

Neste primeiro santuário e serviço terrenais, “todo sacerdote se apresenta a cada dia ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados”. Mas no serviço do santuário e verdadeiro tabernáculo, Cristo, “havendo oferecido pelos pecados um só sacrifício para sempre, está sentado à destra de Deus, aguardando até que Seus inimigos sejam postos por estrado de Seus pés. Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.” Heb. 10: 11-14.

Assim, a perfeição se obtém mediante o sacrifício e sacerdócio de nosso grande Sumo Sacerdote à destra do trono da Majestade dos céus, ministrando no santuário e verdadeiro tabernáculo que o Senhor estabeleceu, e não o homem. “E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo; porquanto após Ter dito: Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles diz, diz o senhor: Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente lhas inscreverei, acrescenta: Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniqüidades, para sempre. Ora, onde há remissão destes já não há oferta pelo pecado.” Heb. 10:15-18

E é esse “caminho novo e vivo” que “por sua carne”, Cristo nos consagrou. Consagrou-o para todo o gênero humano. E por ele pode entrar toda alma até o santo dos santos – o mais santo de todos os lugares, a mais santa de todas as experiências, a mais santa de todas as relações, a vida mais santa. Esse caminho novo e vivo Ele nos consagrou pela Sua carne. Isto é, vindo na carne, identificando-se a si mesmo com o gênero humano na carne, consagrou-nos para onde Ele está agora, à direita do trono da Majestade nos céus, no santo dos santos.

Vindo na carne – havendo sido feito em todas as coisas como nós, e havendo sido tentado em todo o ponto como nós o somos – se identificou com toda alma humana, precisamente na situação atual desta. E desde o lugar em que esta alma se encontra, consagrou para ela um caminho novo e vivo através das vicissitudes e experiências de toda a vida, incluindo a morte na tumba, até o santo dos santos, para sempre à destra de Deus.

Oh, que caminho consagrado, consagrado pelas Suas tentações e sofrimentos, por seus rogos e súplicas, com grande clamor e lágrimas, por Sua vida santa e Sua morte sacrifical, por Sua vitoriosa ressurreição e gloriosa ascensão, e por Sua triunfante entrada no santo dos santos, à direta do trono da Majestade nos céus!

E esse “caminho” consagrou-o para nós. Havendo-se feito um conosco, fez nosso este caminho; ele nos pertence. Outorgou a toda alma este caminho; ele nos pertence. Outorgou a toda alma o divino direito de transitar por este caminho consagrado; e havendo sofrido o mesmo na carne – em nossa carne – fez possível, e nos deu a segurança de que toda alma humana pode andar por ele, em tudo o que este caminho significa; e por ele, acessar plena e livremente o santo dos santos.

Ele, como um de nós, em nossa natureza humana, débil como nós, carregado com os pecados do mundo, durante toda uma vida, foi “Santo, inocente, limpo, separado dos pecadores”, e “feito mais sublime que os céus”. E assim continuou e consagrou o caminho pelo qual, nele, todo crente pode, neste mundo e durante toda a vida, viver uma vida santa, limpa, separada dos pecadores, e como conseqüência ser feito com Ele mais sublime que os céus. A perfeição, perfeição de caráter, é a meta cristã – perfeição obtida na carne humana neste mundo. Cristo a obteve em carne humana neste mundo, constituindo e consagrando assim um caminho pelo qual, Nele, todo crente pode obtê-la. Ele, havendo-a obtido, veio a ser nosso Sumo Sacerdote no sacerdócio do verdadeiro santuário, para que nós a possamos obter.

O objetivo do cristão é a perfeição. O ministério e a suma do sacerdócio de Cristo no verdadeiro santuário é o único caminho pelo qual toda alma pode alcançar o verdadeiro propósito, neste mundo. “Teu caminho, ó Deus, está em Teu santuário”. Sal. 77:13

“Portanto irmãos, sendo que temos plena segurança para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos abriu, através do véu, isto é, de Sua carne, e sendo que temos um grande sacerdote sobre a casa de Deus, acheguemo-nos com um coração sincero, na plena certeza da fé, tendo purificados o coração da má consciência, e lavado o corpo com água limpa”. E “mantenhamos firme a confissão de nossa esperança, em flutuar, pois fiel é o que prometeu”. Heb. 10: 19-23.

“Ora, não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade, e ao clangor da trombeta, e ao som de palavras tais, que quantos o ouviram suplicaram que não se lhes falasse mais... Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e a igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel. Tende cuidado, não recuseis ao que fala. Pois, se não escaparam aqueles que recusaram ouvir que, divinamente, os advertia sobre a terra, muito menos não, os que nos desviamos daquele que dos céus nos adverte”. Heb. 12:18-25

A prevaricação e a abominação desoladora

A prevaricação e a abominação desoladora

Tal é o sacrifício, sacerdócio e ministério de Cristo no santuário e verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem. É a constatação do livro de Hebreus sobre a verdade, mérito e eficácia do sacrifício, sacerdócio, santuário e ministério de Cristo.

Mas não é somente no livro de Hebreus que encontramos esta grande verdade. Se bem que em nenhum outro lugar ela é enunciada de forma tão direta, nem se expõe de uma forma tão plena como no livro de Hebreus, podemos reconhecê-la ao longo de todo o Novo Testamento tão certamente como o santuário e ministério do sacerdócio levítico está presente em todo o Antigo Testamento, ainda que não esteja enunciado de forma tão direta, nem se fale tão plenamente como nos livros de Êxodo e Levítico.

O último livro do Novo Testamento, já no primeiro capítulo, faz menção a “um semelhante ao Filho do homem”, vestido de vestimentas sumo-sacerdotais. No meio do trono e dos quatro animais, no meio dos anciãos, “estava um Cordeiro como tendo sido morto”. Também foi visto um altar de ouro, e um com um incensário de ouro, oferecendo as orações dos santos, para que estas ascendam a Deus com o fumo do incenso oferecido. Ali foram vistas as sete lâmpadas de fogo, ardendo diante do trono. O templo de Deus foi aberto no céu, “e a arca de Seu testamento foi vista em Seu templo”. Então se declara e promete que os que têm parte na primeira ressurreição, aqueles sobre os quais não tem poder a segunda morte, “serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele mil anos” neste sacerdócio. E quando houverem passado o primeiro céu e a primeira terra, e seu lugar não se ache mais, e quando vierem o novo céu e a nova terra, com a santa cidade de Deus descendo de Deus desde o Céu, o tabernáculo de Deus com os homens e Ele morando com eles, sendo eles Seu povo, e Ele seu Deus com eles; quando houver limpado de seus olhos toda a lágrima e não haja mais morte, pranto, clamor nem dor, porque as primeiras coisas já passaram, é então, e não antes, quando se diz da cidade de Deus: “E nela não vi santuário”. É tão certo que há um sacerdócio, ministério sacerdotal, e um santuário nesta dispensação, como o foi na antiga: sim, ainda mais certo; já que, ainda mesmo posto que existia um santuário, sacerdócio e ministério naquela antiga dispensação, não eram mais que uma figura para aquele tempo presente, uma figura do que agora é o verdadeiro, que está no Céu.

Este verdadeiro sacerdócio, ministério e santuário de Cristo no Céu, aparecem tão claramente no Novo Testamento, que ninguém pode negá-los. E, não obstante, surpreendentemente, é algo no que raramente se pensa; é portanto quase desconhecido, e inclusive dificilmente aceito pelo mundo cristão de nossos dias.

Porque acontece isto e como se chegou a até este ponto? Existe um motivo. A Escritura o assinala, e os atos o demonstram.

No capítulo 7 do livro de Daniel, o profeta contemplou em visão os quatro ventos do Céu combatendo no grande mar; “e quatro grandes animais, diferentes um da outro, subiam do mar. O primeiro era como leão, e tinha asas de águia”. Simbolizava o império mundial de Babilônia. O segundo era como um urso que se inclinava de um lado, tendo três costelas na boca, e simbolizava o império conjugado da Medo Pérsia. O terceiro era semelhante a um leopardo, que tinha quatro cabeças e quatro asas de ave, simbolizando o império mundial da Grécia sob Alexandre Magno. O quarto animal “era espantoso e terrível, e sobremodo forte, o qual possuía grandes dentes de ferro: devorava e despedaçava, e pisava o que sobejava com os pés: e era muito diferente de todos os animais que haviam sido antes dele, e tinha dez chifres”. Este quarto animal simbolizava o império mundial de Roma, diferente dos que o precederam, já que originalmente não era uma monarquia ou reino, senão uma república. Os dez chifres simbolizavam os dez reinos implantados a oeste do território, na desintegração do império romano.

O profeta então disse: “Estando eu contemplando os [dez] chifres, vi outro chifre pequeno que subia entre eles, e diante dele foram arrancados três chifres dentre os primeiros; e este chifre possuía olhos como olhos de homem e uma boca que falava com insolência”. O profeta contemplava e admirava este chifre pequeno até que “o tribunal se assentou em juízo, e os livros foram abertos”. E quando se estabeleceu este juízo e se abriram os livros, disse: “Então observei as palavras arrogantes que o chifre proferia. Vi que mataram o animal, e seu corpo foi desfeito e entregue para ser queimado no fogo”. Observe a notável mudança na expressão desta última afirmação. O profeta contemplou o chifre pequeno desde a sua aparição, até o momento em que o “tribunal se assentou em juízo, e os livros foram abertos”. Daniel contemplou o chifre pequeno neste momento; e muito particularmente “à causa das palavras arrogantes que o chifre pequeno falava”. E continuou contemplando esta mesma cena – referente ao mesmo chifre pequeno – até o final, até a sua destruição. Mas quando esta chega, a expressão que descreve sua destruição não é que o chifre pequeno fosse quebrado ou destruído, senão que “mataram o animal, e seu corpo foi desfeito e entregue para ser queimado no fogo”.

Isto demonstra que o chifre pequeno é outra fase do mesmo quarto animal, o animal espantoso e terrível do qual o chifre pequeno não era mais que uma continuação, em seu mesmo espírito, disposição e propósito, somente que em outra variante. E assim como aquele quarto império mundial, o animal espantoso e terrível em sua forma primitiva, era Roma; assim também o chifre pequeno, em seus atos, não é senão a continuação de Roma: o espírito dos atos de Roma, na forma própria que esta é.

A explicação dada sobre o tema no mesmo capítulo, confirma o exposto. Com efeito, se diz do chifre pequeno que é “diferente dos primeiros”, que “falará palavras contra o Altíssimo, aos santos do Altíssimo quebrantará, e tratará de mudar os tempos e a lei”. Também lemos “vi que este chifre combatia aos santos, e os vencia, até que veio o Ancião de dias, e pronunciou juízo em favor dos santos do Altíssimo. E veio o tempo, e os santos possuíram o reino”. Tudo o que foi citado anteriormente é certo, e constitui a descrição da Roma posterior.

E é a própria Roma posterior quem o confirma. O papa Leão o Grande, o foi desde o ano 440 até o 461, o período preciso no qual a primeira Roma vivia seus últimos dias, precipitando-se rapidamente para a ruína. O mesmo Leão o Grande disse em um sermão que a primeira Roma não era mais que a promessa da Roma posterior; que as glórias da primeira haveriam de reproduzir-se na Roma católica; que Rômulo e Remo não eram senão precursores de Pedro e Paulo; os sucessores de Rômulo eram, dessa forma, precursores dos sucessores de Pedro; e da mesma maneira que a primeira Roma havia dominado o mundo, o haveria de dominar a posterior, conta havida do santo e bendito Pedro como cabeça do mundo. O papado jamais abandonou esta concepção de Leão o Grande. Quando, aproximadamente quinze anos depois, o império romano havia perecido como tal, e somente o papado sobreviveu a ruína, assentando-se firmemente e fortalecendo-se em Roma, esta concepção de Leão não fez mais que firmar-se e ser mais abertamente sustida e proclamada.

Tal concepção se foi também desenrolando intencional e sistematicamente. As Escrituras foram examinadas com determinação e foram pervertidas engenhosamente a fim de suster esta idéia. Mediante uma aplicação espúria do sistema do Antigo Testamento, a autoridade e eternidade do sacerdócio romano havia ficado praticamente estabelecida.

E agora, mediante deduções tendenciosas, “a partir do Novo Testamento, se estabeleceu a autoridade e eternidade da própria Roma”.

Considerando-se a si mesmo como a única continuação da Roma original, o papado tomou a posição de que ali onde o Novo Testamento cite ou se refira a autoridade de Roma original, se aplica em realidade a ele mesmo, que é a verdadeira e única continuação desta. De acordo com o anterior, onde o Novo Testamento admoesta a render submissão a “autoridade”, ou a obedecer “aos governadores”, deve referir-se ao papado. A razão é que a única autoridade e os únicos governadores que haviam naquela época, eram os romanos, e o poder papal é o único verdadeiro sucessor do romano.

"Tomou-se todo o texto que contivesse um imperativo quanto ao submeter-se às potestades; toda passagem na qual se ordenasse obedecer às autoridades da nação, chamando especialmente a atenção ao fato de que o mesmo Cristo sancionou o domínio romano ao pacificar o mundo através de Augusto, ao nascer em uma época na qual se pagavam tributos, como os que o mesmo pagou ao César, e ao dizer a Pilatos: “nenhum poder terias contra mim, se do alto não te fosse dado’”. Bryce. E posto que Cristo reconheceu a autoridade de Pilatos, que não era senão representante de Roma, quem se atreverá a desdenhar a autoridade do papado, autêntica continuação desta autoridade a qual o mesmo Senhor do Céu se submeteu!

E não foi senão uma culminação lógica desta pretensão o que levou o papa Bonifácio VIII a apresentar-se a si mesmo ante a multidão vestido de armadura, com um capacete na cabeça e agitando uma espada, para proclamar: “Não há outro César, rei nem imperador, senão eu, o soberano Pontífice e sucessor dos apóstolos”. E posteriormente declarou, falando ex cátedra: “Portanto, asseveramos, estabelecemos e proclamamos que, a fim de ser salvo, é necessário crer que todo ser humano está sujeito ao Pontífice de Roma.

Isto prova suficientemente que o chifre pequeno do capítulo 7 de Daniel é a Roma papal, e que é intencionalmente, em espírito e propósito, a continuação da Roma original.

No capítulo 8 de Daniel, volta-se ao mesmo tema. Primeiramente, o profeta vê em uma visão um carneiro com dois cornos proeminentes, um maior que o outro, em paralelo com o animal semelhante a um urso, que se inclinava para um lado. O anjo declara que significam “os reis da Média e da Pérsia”. Na continuação, o profeta viu um “carneiro” que vinha do oeste sobre a face de toda a terra, sem tocar o solo, e com um chifre notável entre seus olhos. Este último abateu o carneiro, quebrou seus chifres, jogou-o por terra e o pisou, e não houve quem pudesse livrar o carneiro de sua mão. O anjo declarou que “o carneiro é o rei da Grécia, e o chifre grande que possuía entre os olhos é o primeiro rei”. O carneiro se engrandeceu muito, e estando em sua maior força, aquele grande chifre foi quebrado, e em seu lugar subiram outros quatro maravilhosos até os quatro ventos do céu. O anjo explica que isto “significa que quatro reinos sucederão daquela nação, mas não com a mesma força que ele[Alexandre Magno]”.

A partir de uma destas quatro divisões do império de Alexandre Magno, o profeta viu como “de um deles saiu um chifre pequeno, o qual cresceu muito para o sul, para o oriente, e até para a terra gloriosa”. As referências geográficas citadas indicam que este poder surgiu e cresceu muito, a partir do oriente. Segundo explica o anjo, isto significa que “ao final de seu império [as quatro divisões da Grécia] quando se acabarem os prevaricadores, levantar-se-á um rei de rosto altivo, e especialista em intrigas”. “E engrandecendo-se até o exército do céu; e lanou parte do exército e das estrelas por terra, e os pisou”. E seu poder se fortalecerá, mas não pela sua própria força; e destruirá maravilhosamente, e prosperará; e fará arbitrariamente, e destruirá o exército e o povo santo. E com sua sagacidade fará prosperar o engano em sua mão e em seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos: e contra o príncipe dos príncipes se levantará; mas será quebrado sem o auxílio de mãos humanas”.

Estas especificações mostram que o chifre pequeno do capítulo oitavo de Daniel representa a Roma desde que esta surgiu, após a destruição do império grego, até o fim do mundo, quando será quebrado “sem o auxílio de mãos humanas”, por aquela pedra que foi lançada “sem mãos”, a que despedaça todos os reinos terrestres. Dan. 2:34, 35, 44, 45.

Temos visto que no capítulo 7 de Daniel>, o chifre pequeno, se bem que representado como tal somente na fase posterior de Roma, inclui na realidade a Roma em ambas as fases, desde o princípio até o fim; já que ao chegar o momento da destruição do “chifre pequeno”, é “o animal” quem é destruído, “e seu corpo foi desfeito, e entregue para ser queimado no fogo”. Assim, o tema que apresenta a história do chifre pequeno finalizada em 7 de Daniel, encontra sua continuação em Daniel 8, com referência ao mesmo poder. Em Daniel 8, a expressão “chifre pequeno” abrange a totalidade de Roma em suas duas fases, justamente como indica a descrição final do “chifre pequeno” em 7 de Daniel. Assim o demonstram as expressões “abominação desoladora” e “a prevaricação”, aplicadas a Roma em suas duas fases (Dan. 9:26, 27; Mat. 24:15; Dan. 11:31; 12:11; 8:11, 13), e tal como confirma o ensinamento e história da própria Roma posterior. Forma uma unidade, de tal maneira que tudo quanto se declara a respeito da primeira Roma, é certo quanto a posterior, somente que intensificado.

Consideremos agora com mais vagar as expressões bíblicas de Daniel 8, em relação com o poder do chifre pequeno. Nos versículos 11 e 25, se diz deste poder: “em seu coração se engrandecerá”, “se engrandeceu até o príncipe do exército”, “e contra o príncipe dos príncipes se levantará”. Isto se explica em 2 Tessalonicenses capítulo 2, onde Paulo, corrigindo falsas idéias que estes crentes tinha com respeito a vinda imediata do Senhor, lhes disse: “Ninguém vos engane em nenhuma maneira, porque este dia não virá sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, que se oporá e se exaltará contra tudo o que se chama Deus, ou que se adora; até sentar-se no templo de Deus, como Deus, fazendo-se passar por Deus. Não vos recordais que quando estava convosco, vos dizia isto?” 2 Tes. 2:3-5.

Esta passagem descreve claramente o mesmo poder que se representa em Daniel 8 pelo chifre pequeno. Mas há outras considerações que o mostram mais plenamente. Disse que quando esteve em Tessalônica com os irmãos, havia-lhes dito estas coisas que agora escrevia. Em Atos 17:1-3, está registrada a estadia de Paulo com os Tessalonicenses, nos seguintes termos: “Depois de passar por Anfípolis e Apolônia, chagaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga". E como costumava, Paulo foi “à sinagoga, e por três sábados arrazoou com eles acerca das Escrituras”. E neste arrazoar com eles das Escrituras, explicou-lhes o que devia acontecer quanto à manifestação do homem do pecado, o mistério da iniqüidade, o filho da perdição, que se oporia e exaltaria contra tudo o que se chama Deus, ou que se adora; até sentar-se no templo de Deus, como Deus, fazendo-se passar por Deus.

Arrazoando com o povo sobre as Escrituras, em que parte delas deve ter encontrado Paulo a revelação a partir da qual pode ensinar tudo isto aos tessalonicenses? Sem dúvida o encontrou neste capítulo oitavo de Daniel, e foi a partir disto que lhes falou, estando ainda com eles. Efetivamente, em Daniel 8 encontramos as mesmas expressões que se emprega em 2 Tessalonicenses, dizendo, “não vos lembrais que quando estava convosco, vos dizia isto?”

Isto determina que o tempo seria depois dos dias dos apóstolos, quando Roma se exaltou a si mesma “até o Príncipe do exército”, e “contra o Príncipe dos príncipes”, e o relaciona diretamente com a queda ou apostasia que desenvolveu o papado, que é a Roma posterior em sua última fase.

Agora leiamos os versículos 11 e 12 de Daniel 8, e veremos claramente que este devia ser exatamente o lugar no qual Paulo encontrou a escritura a partir da qual ensinou aos tessalonicenses acerca do “homem do pecado” e “o mistério da iniqüidade”: [o chifre pequeno, o homem do pecado] “Ainda contra o Príncipe do exército se engrandeceu, e tirou o contínuo; e o lugar do Seu Santuário foi lançado por terra. Por causa da prevaricação, o exército e o contínuo foram entregues. Deitou por terra a verdade, e o fez, e prosperou”.

Isto assinala claramente o responsável pela anulação do sacerdócio, e ministério e o santuário de Deus e dos cristãos.

Leiamo-lo de novo: “se engrandeceu contra o Príncipe do Exército, e tirou o contínuo; e o lugar de Seu Santuário foi lançado por terra. O exército e o contínuo lhe foram entregues por causa da prevaricação. Deitou por terra a verdade, e o fez, e prosperou”.

Foi “por causa da prevaricação” ou transgressão, isto é, por causa do pecado, que foi entregue “o exército” e que deitou por terra a verdade, para separar a igreja e o mundo do sacerdócio de Cristo, de Seu ministério e santuário, deitar este por terra e pisoteá-los, foi por causa da prevaricação, ou transgressão, que isto ocorreu. Transgressão é pecado, e esta é a consideração ou revelação sobre a qual o apóstolo Paulo, em 2º Tessalonicenses, define este poder como o “homem do pecado” e o “mistério da iniqüidade”. Em Daniel 8:11-13; 11:31 e 12:11, alguns tradutores da Bíblia acrescentaram a palavra “sacrifício”, que não figura no original, após o termo “contínuo” ou “diário”. O “contínuo” ou “diário”, correspondente ao original hebraico tamid, e não se refere aqui ao sacrifício diário ou contínuo em particular, senão a todo o ministério ou serviço contínuo do santuário, do qual o sacrifício não era mais que uma parte. A palavra tamid significa “contínuo”, “constante”, “estável”, “seguro”, “permanente”, e “para sempre”. Tais expressões dão a idéia exata do termo original, que é traduzido como “diário” ou “contínuo”. Somente nos capítulos 28 e 29 de Números, se emprega este termo dezessete vezes, referindo-se ao serviço contínuo do santuário.

E este serviço contínuo de Cristo, autêntico Sumo Sacerdote, e que “permanece para sempre”, feito perfeito “para sempre”, ostentando “um sacerdócio imutável”, é esse serviço contínuo de nosso grande Sumo Sacerdote que o homem do pecado, o papado, tirou. É o verdadeiro santuário no qual o genuíno Sumo Sacerdote exerce Seu ministério contínuo, o que “a abominação desoladora” deitou por terra. É este ministério ou santuário que “o homem do pecado” eliminou da igreja e do mundo, lançando-o por terra e pisoteando-o; e pondo-se a si mesmo, “a abominação desoladora”, no lugar dele. O que fez a primeira Roma fisicamente ao santuário visível ou terrestre, “figura do verdadeiro” (Dan. 9:26, 27; Mat. 24:15), é o que fez a Roma posterior, espiritualmente, ao santuário visível ou celestial, que é o verdadeiro. Dan. 11:31; 12:11; 8:11, 13.

A citação que aparece ao pé da página 67, mostra que na apostasia, os bispos, presbíteros, diáconos e as eucaristias, deviam suceder aos sumo sacerdotes, sacerdotes, levitas e sacrifícios do sistema levítico. Agora, nas Escrituras, fica patente que o desígnio de Deus é que Cristo, Seu ministério e santuário no Céu – verdadeiro objetivo do sistema levítico – fosse a exclusiva e autêntica sucessão cristã a este sistema levítico. Portanto, quando na apostasia, nos moldes de sucessão do sistema levítico, se instituiu o sistema de bispos em lugar dos sumo sacerdotes, diáconos em lugar de levitas e a santa ceia como sacrifício, em realidade ao introduzir este sistema como sucessão cristã do levítico, não se fez outra coisa senão estabelecer este falso sistema de culto apóstata em lugar do verdadeiro, anulando este completamente, para finalmente lançá-lo por terra e pisá-lo.

Por isso esta grande verdade cristã do autêntico sacerdócio, ministério e santuário de Cristo é praticamente desconhecida para o mundo cristão de hoje em dia. O “homem do pecado” tirou-a, lançou-a por terra e a pisou. O “mistério da iniqüidade” escondeu esta grande verdade da igreja e do mundo durante todos estes anos nos quais pretende ter o lugar de Deus, e sua hoste iníqua, o lugar da igreja de Deus.

Não obstante, o próprio “homem do pecado”, o “mistério da iniqüidade”, dá testemunho da necessidade de um serviço tal na igreja, por causa dos pecados. Se bem que este “homem do pecado” tenha tirado o verdadeiro santuário, ministério e santuário de Cristo, lançando-o por terra, pisando e ocultando completamente da vista do mundo cristão, entretanto, não rejeitou a idéia por completo. Não: tirou o verdadeiro e o lançou por terra, mas retendo a idéia, estabeleceu, em seu próprio seio, uma estrutura totalmente falsa em lugar da verdadeira.

Cristo, verdadeiro e divino Sumo Sacerdote por desígnio do próprio Deus do Céu, foi substituído por um sacerdócio humano, pecaminoso e pecador na terra. No lugar do ministério contínuo e celestial de Cristo em seu verdadeiro sacerdócio, baseado em um verdadeiro sacrifício, estabeleceu um ministério descontínuo e terrenal mediante um sacerdócio pecaminoso e pecador, no sacrifício “diário” da missa (oferecida uma vez ao dia). E no lugar do santuário e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem, estabeleceu seus próprios lugares de reunião, construídos em pedra e madeira, e dando-lhes o nome de “santuário”. Assim, no lugar do contínuo Sumo Sacerdote, do contínuo ministério e do contínuo sacerdócio celestiais que Deus ordenou, e que são os únicos verdadeiros, desenhou de seu próprio coração, para substituir o anterior, muitos sumos sacerdotes, ministérios, sacrifícios e santuários na terra, que na melhor das hipóteses não passam de seres humanos, e falsificados.E nunca podem tirar os pecados. Nenhum sacerdócio, ministério, serviço ou sacrifício terrenais, em santuário terrenal algum, pode jamais tirar o pecado. Temos visto em Hebreus que nem sequer o ministério, sacerdócio, sacrifício e serviço do santuário terrenal – o que o mesmo Senhor estabeleceu na terra – podia tirar o pecado. O registro inspirado nos diz que nunca tirava o pecado, e que nunca poderia fazê-lo.

Unicamente o sacerdócio e ministério de Cristo podem tirar o pecado. E constituem um sacerdócio e ministério celestiais, pertencem a um santuário celestial porque quando Cristo esteve na terra, não era sacerdote. E se houvesse permanecido nela até os nossos dias, tampouco o seria. Segundo Hebreus 8:4 “se estivesse em nossos dias, nem ao menos sacerdote seria”. Assim, por preceito claro e por abundante ilustração, Deus demonstrou que nenhum ministério, sacerdócio ou sacrifício terrenais podem tirar o pecado.

Se é que alguém pode fazê-lo, não seria por acaso o que Deus mesmo ordenou sobre a terra? E se tal houvesse podido verdadeiramente tirar o pecado, que necessidade haveria de mudar o sacerdócio da terra para o céu? Portanto, segundo a Palavra clara do Senhor, o sacerdócio, ministério, sacrifício e santuário que o papado estabeleceu, e que opera na terra, não pode jamais tirar o pecado. Muito pelo contrário, o que faz é perpetuá-lo. É uma fraude, uma impostura, a “prevaricação” e a “abominação desoladora” no lugar santíssimo.

E esta conclusão e constatação do que constitui em realidade o sistema papal, não é uma dedução peregrina e extravagante. A confirmam as palavras do Cardeal Baronius, analista oficial do papado. Referindo-se ao século X, escreveu: “Neste século se viu a abominação desoladora no tempo do Senhor; e à vista de São Pedro, reverenciado pelos anjos, foram postos os mais iníquos dentre os homens: não pontífices, e sim monstros”. E o concílio de Rheims, no ano 991, definiu o papado como “o homem do pecado, o mistério da iniqüidade”.

Então o mistério de Deus será consumado

Então o mistério de Deus será consumado

Mas graças a Deus, esta impostura não irá durar para sempre. A grande verdade do sacerdócio, ministério e santuário cristãos não vai ser para sempre oculta dos olhos da igreja e do mundo. Foi erigido um mistério da iniqüidade, e escondeu do mundo o mistério de Deus, de maneira que toda a terra se maravilhou seguindo a besta. Apoc. 13: 3, 4. Mas se aproxima o dia no qual este mistério será desmascarado, e o mistério de Deus brilhará novamente no esplendor de sua verdade e pureza, para nunca mais ser oculto, e para cumprir seu grande propósito, alcançando sua inteira consumação. Porque está escrito que “nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele começar a tocar a trombeta, o mistério de Deus será consumado, como Ele o anunciou aos seus servos os profetas”. Apoc. 10:7

Nos dias de Cristo e Seus apóstolos, foi revelado o mistério de todas as pessoas para que obedeçam a fé. Rom. 16:25, 26. Desde o princípio do mundo até esse tempo, foi esse “mistério escondido desde os séculos em Deus”, “o mistério que havia estado oculto desde as eras e séculos, mas agora tem sido manifestado aos seus santos, aos quais quis Deus fazer notórias as riquezas da glória deste mistério entre os gentios; que é Cristo em vós, a esperança da glória: o qual nós anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando em toda a sabedoria, para que apresentemos a todo o homem perfeito em Cristo Jesus”. Col. 1:26-29. Efe. 3:3. 5. 9.

Mas já neste tempo, nos dias dos apóstolos, operava o “mistério da iniqüidade”. E continuou até alcançar poder e supremacia mundiais, inclusive até quebrantar os santos do Altíssimo e pensar em mudar os tempos e a lei, levantando-se contra o Príncipe dos príncipes, engrandecendo-se ainda contra o Príncipe do exército, colocando-se a si mesmo no lugar de Deus. E assim, mas esta vez não em Deus, o mistério de Deus foi ocultado. Mas agora, nos dias da voz do sétimo anjo, precisamente agora, este mistério de Deus que durante anos esteve oculto das gerações, é manifestado aos seus santos, “aos quais quis Deus fazer notórias as riquezas da glória deste mistério entre os gentios; que é Cristo em vós, a esperança da glória: o qual nós anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando em toda sabedoria, para que apresentemos a todo o homem perfeito em Cristo Jesus”.

E isto, como já documentamos, se sucede de acordo a “como Ele o revelou aos seus servos os profetas”. Esta não é uma declaração isolada do profeta de Patmos, dirigida a seu tempo. É agora, em nossos dias, que “o mistério de Deus será consumado”, já que quando o anjo de Deus fez esta proclamação na visão do profeta de Patmos, já o havia previamente anunciado, e muito tempo antes, aos seus servos, os profetas. A proclamação feita em Patmos não foi senão a declaração do anjo de Deus de que o que foi anunciado aos Seus servos, os profetas, devia agora se cumprir plenamente, e sem mais demora. As palavras do anjo são as seguintes: “E o anjo que vi estar sobre o mar e sobre a terra, levantou a sua mão ao céu, e jurou por aquele que vive para sempre, que criou os céus e a terra e todas as coisas que neles há, e a terra e todas as coisas que nela estão, e o mar e as coisas que nele estão, que o tempo não será mais. Mas nos dias do sétimo anjo, quando ele começar a tocar a trombeta, o mistério de Deus será consumado, como Ele o anunciou aos seus servos os profetas”. Apoc. 10:5-7.

Daniel é o profeta ao qual mais plena e claramente foi revelado. Daniel contemplou, não somente a aparição deste chifre pequeno, seu levantar-se “contra o Príncipe do exército”, “contra o Príncipe dos príncipes”, seu deitar por terra a verdade e o santuário pisando-os, senão que viu também, e na mesma visão, a verdade e o santuário libertos do poder do chifre pequeno, resgatados do pisar blasfemo deste, levantados da terra e exaltados até o céu, a quem pertencem. E é precisamente nesta parte da visão na qual parecem demonstrar os seres celestiais o maior interesse, já que Daniel disse “Então ouvi um santo que falava, e outro santo lhe perguntou:“Até quando durará a visão do contínuo, da prevaricação assoladora, na qual o exército e o santuário são pisados?E Ele respondeu: até 2300 tardes e manhãs; e o santuário será purificado’”. Dan. 8: 13, 14.

Então Gabriel foi encarregado de fazer Daniel entender a visão. Começou a fazê-lo, até que chegou à explicação dos muitos dias da visão, ponto no qual as surpreendentes e terríveis coisas enfraqueceram a Daniel: “E eu, Daniel, fiquei quebrantado, e estive enfermo por muitos dias. Quando me restabeleci, atendi aos negócios do rei. Mas fiquei espantado acerca da visão, e não a compreendia”. Dan. 8:27. Até onde havia sido explicado, era fácil de se entender: se declara textualmente (sobre a visão) que o carneiro são os dois reis da Média e da Pérsia, e o bode era o rei da Grécia. E à vista das explicações já feitas nos capítulos 2 e 7 de Daniel, a descrição do poder que sucederia à Grécia, se compreendia facilmente a medida que o anjo avançava na explicação. Mas justamente na parte mais importante da explicação, Daniel desfaleceu, de forma que se perdeu a parte mais significativa da explicação, e “não havia quem a entendesse”.

Entretanto, o profeta procurou diligentemente uma compreensão da visão, e após a destruição de Babilônia, no primeiro ano do rei dos medos e persas, o anjo Gabriel apareceu novamente a Daniel dizendo: “Daniel, agora saí para te fazer entender a visão” Dan. 9: 1, 22. E veio precisamente para fazer-lhe entender a parte daquela visão que havia começado a explicar quando Daniel desfaleceu. Assim, primeiramente dirigiu a atenção de Daniel para a visão, dizendo: “Quando começaste a orar, foi dada a resposta, e eu vim para instruir-te, porque tu és mui amado. Entende pois, a palavra e entende a visão”. Vers. 23. Havendo dirigido nestes termos a atenção do profeta para a visão, o anjo aborda diretamente o tema do tempo mencionado na mesma: a parte precisa da visão na qual, por causa do desfalecimento de Daniel, havia ficado sem explicação. Disse pois: “setenta semanas estão separadas para seu povo teu povo e sobre a tua santa cidade”. Vers. 24.

A palavra “separadas” significa “cortadas”, “colocadas sob limites”, “assinaladas quanto ao seu alcance”. Ao explicar pela primeira vez a visão, o anjo havia chegado ao tema do tempo: os “muitos dias” de Dan. 8:26, os “dois mil e trezentos dias” da visão. Agora, ao chamar a atenção de Daniel para a visão, começa imediatamente a referir-se a estes dias, explicando os acontecimentos com eles relacionados. “Setenta semanas”, ou 490 destes dias, estão separados ou cortados (limitados) para os judeus e Jerusalém. Isto assinala os limites do tempo para os judeus e Jerusalém como povo e cidade especiais de Deus. Tratam-se de dias proféticos, nos quais cada dia corresponde a um ano: as 70 semanas, ou 490 dias vem a ser 490 anos, separados (tomados) dos 2.300 dias, que por sua vez são dois mil e trezentos anos. O princípio dos 490 anos é pois coincidente com o dos 2.300 anos.

O relato das “setenta semanas”, ou 490 anos, é dado pelo anjo nestes termos: “Conhece, pois, e entende, que desde a saída para a ordem para restaurar e reedificar Jerusalém até o Messias o Príncipe, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas. As praças e as muralhas se reedificarão, mas em tempos angustiosos. Depois das 62 semanas será morto o Messias, e não por Ele mesmo. E o povo de um príncipe que há de vir, destruirá a cidade e o Santuário. Seu fim virá como uma inundação, e até o fim haverá guerra, desolações são determinadas. Ele fará aliança com muitos por uma semana; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele.” Dan. 9:25-27.

O decreto para restaurar e reedificar Jerusalém se produziu em 457 a.C., e se encontra registrado no capítulo 7 de Esdras. Foi emitido na Babilônia, e se dirigiu primeiramente a Esdras, concedendo-lhe autorização para abandonar Babilônia e para tomar consigo as pessoas e o material necessário para a reconstrução de Jerusalém, a fim de que Deus pudesse ser adorado ali. E posteriormente,“a todos os tesoureiros do outro lado do rio” Eufrates, com o objetivo de que provessem o que Esdras solicitasse para o avançamento da obra. Quando Esdras chegou a Jerusalém era o quinto mês do ano, portanto a restauração devia começar a partir do outono de 457a.C., o que nos conduz ao ano 456 ¼ como data de partida dos 490 anos, e dos 2300 anos.

A partir de então, 483 anos conduziriam ao “Messias Príncipe”, o que leva ao ano 26 e ¾ da era cristã, isto é, o ano 27d.C., que é precisamente o ano no qual Cristo fez Sua aparição como Messias, “fará aliança com muitos” “por uma semana”, ou seja, a semana que faltava para completar as 70. Mas na metade desta semana, “fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares” pelo sacrifício de si mesmo na cruz. A metade da semana tem que ser ao final dos três anos e meio, daqueles sete, a contando desde o outono de 27d.C. Isto conduz à primavera do ano 31d.C., no preciso momento em que o Salvador foi crucificado; e deste modo, mediante Seu próprio sacrifício, o autêntico sacrifício pelos pecados, fez cessar para sempre o sacrifício e a oferta de manjares. Nesta ocasião, o véu do templo terreno “se rasgou em dois, desde em cima até embaixo”, indicando que o serviço de Deus chegava ao seu final naquele lugar, e a casa terrena seria deixada deserta.

Ficava no entanto a segunda metade da 70a semana, dentro do limite de tempo ao qual o povo judeu e Jerusalém contariam com o favor especial. Esta semana teve início na primavera do ano 31 de nossa era, e se estendia até o outono de 34d.C. Naquele tempo, “os que haviam sido espalhados pela perseguição que veio depois de Estevão, iam por todas as partes anunciando a Palavra, e foram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, e a ninguém pregaram a Palavra", senão “somente aos judeus”. Atos. 11:19; 8:4. Mas quando este tempo expirou, e os judeus se confirmaram na rejeição do Messias e Seu evangelho, então sua decisão foi aceita, e sob a direção de Pedro e Paulo, as portas se abriram de par em par aos gentios, aos quais pertence a porção restante dos 2.300 anos.

Após os 490 anos separados para os judeus e Jerusalém, ficam ainda 1810 anos para os gentios (2.300 – 490 = 1810). Esse período dos 1.810 anos, começando, como vimos, no outono do ano 34 de nossa era, conduz de forma precisa ao ano de 1844, marcando esta data como sendo o final dos 2.300 anos. E nesse tempo, por palavra de quem não pode equivocar-se (Dan. 8:14), “o santuário será purificado”. 1844 foi igualmente o preciso tempo “dos dias da voz do sétimo anjo, quando ele começar a tocar a trombeta”, e o mistério de Deus será consumado, como Ele anunciou aos Seus servos os profetas.

Nesta época se quebrantaria o horror das densas trevas com as quais o mistério da iniqüidade ocultou pelas gerações o mistério de Deus. É então quando o santuário e verdadeiro tabernáculo, e sua verdade, se elevariam desde o solo, de onde o homem do pecado os havia lançado para pisá-los, sendo exaltados até o Céu, lugar ao qual pertencem. Desde ali brilharão com luz tal que toda a terra será iluminada com a sua glória. Nesse tempo, a verdade transcendental do sacerdócio e ministério de Cristo será resgatada do esquecimento ao qual a prevaricação e a abominação desoladora os haviam submetido, e será uma vez mais, e definitivamente, restituída a seu genuíno lugar celestial na fé da igreja, cumprindo em todo verdadeiro crente esta perfeição que é o eterno propósito de Deus em nosso Senhor Cristo Jesus.

A purificação do santuário

A purificação do santuário

A purificação do santuário e a consumação do mistério de Deus são coincidentes no tempo, e estão tão estreitamente relacionados que constituem uma identidade prática em caráter e alcance.

No “figura do verdadeiro” ou santuário visível, a sucessão dos serviços formava um ciclo que completava anualmente. E a purificação do santuário era a consumação deste serviço anual figurativo. Esta purificação do santuário consistia na limpeza e eliminação do santuário “das imundícies dos filhos de Israel, e de suas rebeliões, e de todos seus pecados” que, mediante o ministério sacerdotal, haviam sido levados ao santuário durante o ano.

A consumação desta obra, de e para o santuário, era também a consumação da obra para o povo, já que neste dia da purificação do santuário, que era o dia da expiação (ou reconciliação), quem não participasse do serviço de purificação mediante o escrutínio do coração, confissão e expulsão do pecado, seria cortado definitivamente do povo. Assim, a purificação do santuário afetava o povo e o incluía tão certamente como ao próprio santuário. E qualquer um do povo que não participasse da purificação do santuário, não sendo ele mesmo purificado como o era o santuário – de toda a iniqüidade, transgressão e pecado, - era cortado do povo para sempre. Lev. 16:15-19; 29-34; 23:27-32. E isto “era figura daquele tempo presente”. Este santuário, sacrifício, sacerdócio e ministério, eram figura do verdadeiro, que é o santuário, sacrifício, sacerdócio e ministério de Cristo. E esta purificação do santuário era uma figura do verdadeiro, que é a purificação do santuário – e verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem, - de toda a impureza dos crentes em Jesus, por causa de suas transgressões em todos os seus pecados. E o momento desta purificação do verdadeiro, nas palavras dAquele que não pode errar, é: “até 2300 dias, e o santuário será purificado”- o santuário de Cristo, - no ano 1844 de nossa era.

E certamente, o santuário do qual Cristo é o Sumo Sacerdote é o único que poderia ser purificado em 1844, já que é o único que existia então. O santuário que era figura para o tempo presente, foi destruído pelo exército Romano, junto com a cidade (Dan. 9:26). Inclusive sua substituição foi destruída “até uma inteira consumação”. Por Ele, o único santuário que poderia ser purificado no tempo assinalado pelo Autor da profecia, ao final dos 2300 dias, era o próprio santuário de Cristo. O santuário e o verdadeiro tabernáculo de que Cristo, à destra de Deus, é verdadeiro sacerdote e ministro. Este “santuário e verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não homem”.

O significado desta purificação está claramente expresso na parte da Escritura que estamos estudando: Dan. 9:24-28. O anjo de Deus, ao explicar a Daniel a verdade concernente aos 2.300 dias, declarou também o grande objetivo do Senhor neste tempo, em relação com os judeus e gentios. As setenta semanas, ou 490 anos delimitados para os judeus e Jerusalém, especifica-se que são “para acabar com a prevaricação. Por fim ao pecado, expiar a iniqüidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia, e ungir o Santo dos santos”. Dan. 9:24.

Tal é o verdadeiro propósito de Deus no santuário e seus serviços, em todo o tempo: seja na “figura” ou no verdadeiro, para judeus ou gentios, na terra como no céu. Setenta semanas, ou 490 anos, era concedido aos judeus, para que alcançassem o cumprimento ou consumação deste propósito, por eles e neles. A fim de alcançá-lo, o mesmo Cristo veio a este povo, entre todos os povos, para mostrar-lhes o Caminho e conduzi-los por ele. Mas não o receberam. Em lugar de ver no misericordioso Ser que acabaria com a prevaricação, poria fim ao pecado, expiaria a iniqüidade e traria justiça eterna a toda a alma, viram nEle somente a “Belzebu, príncipe dos demônios”; viram a um em lugar do qual escolheriam decididamente a um malfeitor; a um que repudiariam abertamente posto que Rei, escolhendo não ter outro rei a não ser o César romano; a um que não julgaram digno de outra coisa que não fosse a crucifixão e expulsão do mundo. Para um povo tal, e em um povo tal como esse, poderia Ele por fim à prevaricação, dar fim ao pecado, expiar a iniqüidade e trazer a justiça eterna? Impossível. Impossível pela sua própria obstinada rebelião. Em lugar de permitir a Ele o efetuar uma obra tão misericordiosa e maravilhosa em favor deles, desde a profundidade da pena e dor divinas, se viu compelido a exclamar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas aos profetas, e apedrejas aos que são enviados a ti! Quantas vezes quis juntar seus filhos, como a galinha junta seus pintainhos debaixo das suas asas, e não quiseste! Vossa casa vos será deixada deserta”. “O reino de Deus será tirado de vós, e será dado a pessoas que dêem devidos frutos". Mat. 23:37, 38; 21:43.

Após a rejeição dos judeus, o reino de Deus foi dado às nações gentílicas. E tudo quanto deveria ter sido feito pelos judeus nos 490 anos dedicados a eles, mas que de nenhuma forma consentiram que se realizasse, isto mesmo é o que deve fazer-se pelos gentios, a quem se dá o reino de Deus nos 1810 anos que se lhes concede.

E esta obra consiste em “acabar a prevaricação, por fim ao pecado, expiar a iniqüidade, trazer a justiça dos séculos, selar a visão e a profecia, e ungir o Santo dos santos”. Isto pode realizar-se somente na consumação do mistério de Deus, na purificação do verdadeiro santuário cristão. E isto se efetua no verdadeiro santuário, precisamente acabando com a prevaricação (ou transgressão) e pondo fim aos pecados pelo aperfeiçoamento dos crentes em Jesus, de uma parte; e de outra parte, acabando a prevaricação e pondo fim aos pecados na destruição dos maus e a purificação do universo de toda a mancha de pecado que uma vez haja existido nele.

A consumação do mistério de Deus é o cumprimento final da obra do evangelho. E a consumação da obra do evangelho é, primeiramente, a erradicação de todo vestígio de pecado e trazer a justiça eterna, isto é, Cristo plenamente formado em todo o crente, Deus manifestado na carne de cada crente em Jesus; e em segundo lugar, e por outro lado, a consumação da obra do evangelho significa precisamente a destruição de todos aqueles que deixaram de receber o evangelho (2 Tes. 1:7-10), já que é a vontade do Senhor preservar a vida de homens cujo único fim seria acumular miséria sobre si mesmos.

Temos visto que no serviço do santuário terrestre, quando se havia finalizado a obra do evangelho no ciclo anual em benefício daqueles que nele haviam tomado parte, aqueles que, pelo contrário, não haviam participado, eram cortados ou excluídos. “O qual era figura daquele tempo presente”, e ensina de forma inequívoca que no serviço do verdadeiro santuário, quando se houver finalizado a obra do evangelho para todos os que participam nele, então, todos aqueles que não tomaram parte, serão excluídos. Assim, em ambos sentidos, a consumação do mistério de Deus significa por fim ao pecado para sempre.

No serviço do santuário terrestre vemos também que para produzir-se a purificação, completando-se assim o ciclo da obra do evangelho, deveria este primeiro alcançar seu cumprimento nas pessoas que participavam no serviço. Em outras palavras: no santuário mesmo não se podia acabar com a prevaricação, por fim ao pecado, expiar a iniqüidade nem trazer a justiça eterna, até que tudo isto se houvesse cumprido em cada pessoa que participava do serviço do santuário. O santuário mesmo não podia ser purificado antes que o fossem cada um dos seus adoradores. O santuário não podia ser purificado enquanto se continuasse introduzindo nele uma torrente de iniqüidades, transgressões e pecados, mediante a confissão do povo e a intercessão dos sacerdotes. A purificação do santuário como tal, consistia na erradicação e expulsão do santuário, de todas as transgressões do povo, que pelo serviço dos sacerdotes havia sido introduzido nele, durante todo o ano. E esta torrente deve ser detida em sua fonte, nos corações e vidas dos adoradores, antes que o santuário mesmo possa ser purificado.

De acordo com o anterior, o primeiro ato que se efetuava na purificação do santuário, era a purificação do povo. O que era essencial e imprescindível para a purificação do santuário, para acabar a prevaricação, por fim ao pecado, expiar a iniqüidade e trazer a justiça eterna, era acabar a prevaricação, por fim ao pecado, expiar a iniqüidade e trazer a justiça eterna no coração e vida de cada um dentre os do povo. Quando se detinha em sua origem a torrente que fluía até o santuário, então, e, somente então, poderia o próprio santuário ser purificado dos pecados e das transgressões do povo, que haviam sido introduzidos nele mediante a intercessão dos sacerdotes.

E tudo isto “era figura para aquele tempo presente”, “figura do verdadeiro”. Se nos ensina pois, claramente, que o serviço de nosso grande Sumo Sacerdote na purificação do verdadeiro santuário deve ser precedido pela purificação de cada um dos crentes, a purificação de cada um dos que participam neste serviço do verdadeiro Sumo Sacerdote e verdadeiro santuário. É imprescindível que se acabe a prevaricação, que se dê fim ao pecado, que se expie a iniqüidade e se traga a justiça eterna na experiência de todo crente em Jesus, antes que se possa cumprir a purificação do verdadeiro santuário.

Tal é precisamente o objetivo do verdadeiro sacerdócio e ministério no verdadeiro santuário. Os sacrifícios, o sacerdócio e ministério no santuário que não eram mais que uma mera figura para aquele tempo presente, não podiam realmente tirar o pecado, não podiam fazer perfeito os que se achegavam a ele. Mas o sacrifício, o sacerdócio e o ministério de Cristo no verdadeiro santuário, tira os pecados para sempre, faz perfeitos aos todos quantos se achegam a Ele, faz “perfeitos” para sempre aos santificados.

O tempo do refrigério

O tempo do refrigério

E agora, neste tempo da consumação da esperança dos séculos, neste tempo em que o verdadeiro santuário deve ser genuinamente purificado, neste tempo em que deve ser completada a obra do evangelho e consumado realmente o mistério de Deus, é o momento dentre todos os momentos que jamais tenham passado, no qual os crentes em Jesus, que são os benditos destinatários de Seu glorioso sacerdócio e maravilhosa intercessão no verdadeiro santuário, participem da plenitude de Sua graça celestial de forma que em suas vidas se acabe a prevaricação, haja o fim do pecado e a iniqüidade seja expiada para sempre, e na perfeição da verdade recebam a justiça eterna.

Este é precisamente o propósito definido do sacerdócio e ministério de Cristo no verdadeiro santuário. Acaso não é este sacerdócio suficiente? Será Seu ministério eficaz, logrando a execução de seu propósito? Sim, com toda a certeza. É somente por esse meio que está assegurado o seu cumprimento. Não está ao alcance de nenhuma alma, por ela mesma, o acabar a prevaricação, o por fim aos pecados, nem fazer reconciliação pelas iniqüidades ou trazer a justiça eterna em sua própria vida. A fim de que tal coisa se realize, deve esta ser feita somente e obrigatoriamente pelo sacerdócio e ministério dAquele que Se deu a Si mesmo, e que foi entregue para cumprir isto mesmo em todas as almas, “para fazer-nos santos, sem mancha e irrepreensíveis” à vista de Deus.

Todo aquele cujo coração esteja inclinado à verdade e retidão, deseja ver isto realizado; somente o sacerdócio e ministério de Cristo o podem fazer, e agora é o tempo para o seu pleno e definitivo cumprimento. Portanto, creiamos nAquele que o está efetuando, e confiemos No que é capaz de levá-lo à eterna e completa consumação.

Este é o tempo, e esta é a obra da qual se declara que “já não haverá mais tempo” (“o tempo não será mais”). Se o sacerdócio de nosso grande Sumo Sacerdote é eficaz, seu sacrifício e ministério são totalmente adequados em relação com o prometido, aquilo no que espera o crente, porque teria de demorar-se o acabar a prevaricação, por fim ao pecado, fazer a reconciliação pela iniqüidade e trazer a justiça eterna a cada alma crente? Então, confiemos a Cristo o fazer aquilo para o qual Ele deu-se a Si mesmo, e que Ele unicamente pode realizar. Confiemos nEle nisto, e recebamos em Sua plenitude o que pertence a toda a alma que crê e confia incondicionalmente no Apóstolo e Sumo Sacerdote de nossa profissão: Cristo Jesus.

Temos visto que o chifre pequeno – o homem do pecado, o mistério da iniqüidade – instaurou seu próprio sacerdócio terreno, humano e pecaminoso, no lugar do sacerdócio e ministério santo e celestial. Neste serviço e sacerdócio do mistério da iniqüidade, o pecador confessa seus pecados ao sacerdote, e continua pecando. Certamente neste ministério e sacerdócio, não há poder para fazer outra coisa que seja seguir pecando, inclusive após ter confessado os pecados. Mas, ainda que seja triste perguntar, os que não pertencem ao mistério da iniqüidade, senão que crêem em Jesus e Seu sacerdócio celestial, não é certo que confessam eles também seus pecados, para logo continuar pecando?

Faz isto justiça ao nosso grande Sumo Sacerdote, ao Seu sacrifício e ao Seu bendito ministério? É justo que rebaixemos assim a Cristo, Seu sacrifício e Seu ministério, praticamente a altura da “abominação desoladora”, dizendo que no verdadeiro ministério não há mais poder ou virtude que no “mistério da iniqüidade”? Que Deus livre hoje e para sempre a Sua igreja e povo, sem mais demora, de este rebaixar até o ínfimo nosso grande Sumo Sacerdote, Seu sacrifício formidável e Seu glorioso ministério.

Confiemos de verdade em nosso grande Sumo Sacerdote, e que nossa confiança seja realmente inamovível. É possível ouvir protestantes manifestando surpresa pela cega insensatez dos católicos ao confiar plenamente no sacerdote. E com respeito ao sacerdócio terreno, a surpresa está justificada. Todavia, a fé incondicional no sacerdote é totalmente correta, se bem que deve ser no verdadeiro Sacerdote. A fé em um falso sacerdócio é prejudicial ao extremo, mas o princípio da confiança inquebrantável no Sacerdote é eternamente correto. E Jesus Cristo é o verdadeiro Sacerdote. Portanto, todo aquele que crê em Jesus, no sacrifício que Ele fez, no sacerdócio e ministério que Ele exerce no verdadeiro santuário, deve, não somente confessar seus pecados, mas deve também confiar absolutamente no verdadeiro Sumo Sacerdote e em seu ministério no verdadeiro santuário para acabar com a prevaricação, (transgressão), por fim ao pecado, fazer reconciliação pela iniqüidade e trazer a justiça eterna ao seu coração e vida.

Recordem-se; justiça eterna. Não justiça para hoje e pecado para amanhã, e justiça outra vez, e pecado de novo. Isto não é justiça eterna (retidão perdurável). A justiça eterna é trazida, e permanece constantemente na vida de quem tem crido e confessado, e que segue crendo e recebendo esta justiça eterna em lugar do pecado e do pecar. Nisto consiste a justiça eterna, nisto consiste a redenção eterna do pecado. E esta bênção maravilhosa é o dom gratuito de Deus por meio do ministério celestial que foi estabelecido para nosso benefício no sacerdócio e ministério de Cristo no santuário celestial.

Como conseqüência, hoje, justamente agora, “enquanto dura este hoje” como nunca antes a palavra de Deus a todo o homem é “Arrependei-vos e convertei-vos para que sejam apagados vossos pecados, e venham os tempos do refrigério pela presença do Senhor, e Ele envie Jesus Cristo, designado de antemão, a quem é necessário que o Céu retenha até o tempo da restauração de todas as coisas.” Atos 3:19-21.

O tempo da vinda do Senhor e da restituição de todas as coisas, está verdadeiramente às portas. E quando Jesus vier, será para tomar o Seu povo consigo. Para apresentar a Si mesmo uma igreja gloriosa “que não tivesse mancha nem ruga, nem coisa semelhante; senão que fosse santa e sem mancha”. É para ver a Si mesmo perfeitamente refletido em todos os Seus santos.

E antes que venha, Seu povo deve estar nesta condição. Antes que venha devemos ter sido levados a este estado de perfeição, à plena imagem de Jesus. Efe. 4:7, 8, 11-13. E este estado de perfeição, este desenrolar em todo o crente à completa imagem de Jesus, isto é a consumação do mistério de Deus, que é Cristo em vós, a esperança da glória. Esta consumação acha seu cumprimento na purificação do santuário, que significa a realização plena do mistério de Deus, e que é acabar a prevaricação, por um fim completo aos pecados, fazer reconciliação pela iniqüidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia, e ungir o Santo dos santos.

Posto que é neste tempo que a vinda de Jesus e a restauração de todas as coisas está às portas; e dado que este aperfeiçoamento dos santos deve necessariamente preceder a dita vinda e restauração, temos uma sólida evidência de que agora estamos no tempo do refrigério, o tempo da Chuva Serôdia. E tão certamente como isto é assim, estamos atualmente vivendo no tempo do apagar definitivo de todos pecados que em qualquer tempo nos assediaram. A purificação do santuário consiste precisamente em apagar os pecados: em acabar com a transgressão em nossas vidas; em por fim a todo o pecado em nosso caráter; na vinda da própria justiça de Deus que é pela fé em Jesus, para que ela somente permaneça para todo o sempre.

Este apagar dos pecados deve preceder a recepção do refrigério da chuva serôdia, já que a promessa do Espírito vem somente sobre aqueles que têm a bênção de Abraão, e esta bênção se pronuncia somente sobre aqueles que estão redimidos do pecado. Gál. 3: 13, 14. Portanto, agora, como nunca antes, devemos arrepender-nos e converter-nos, para que nossos pecados sejam apagados, para que se possa por fim por completo deste em nossas vidas, e trazer a justiça dos séculos; e isto, com o fim de que seja nossa a plenitude do derramamento do Espírito Santo, neste tempo do refrigério da chuva serôdia. Deve dar-se tudo isto para que a mensagem do evangelho do reino, que produz a maturação da colheita, seja pregada em todo o mundo com este poder do alto pelo qual toda a Terra será iluminada com a sua glória.

“Conclusão”

CONCLUSÃO

Cristo, o Senhor, o Filho de Deus, desceu do Céu e se fez carne, e habitou entre os homens como Filho do homem.

Morreu na cruz do Calvário por nossas ofensas.

Ressuscitou dos mortos para nossa justificação.

Ascendeu ao Céu como nosso advogado, e como tal se assentou à destra do trono de Deus.

É sacerdote no trono de Seu Pai; sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.

À destra de Deus, no Seu trono, como sacerdote em Seu trono, Cristo é “ministro do santuário, e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem”.

E voltará outra vez nas nuvens do Céu, com poder e grande glória, para tomar Seu povo consigo, para apresentar-se a si mesmo Sua igreja gloriosa, e para julgar o mundo.

As declarações anteriores constituem princípios eternos da fé cristã.

Para que a fé seja verdadeira e plena, é preciso que a vida de Cristo na carne, Sua morte na cruz, Sua ressurreição, ascensão e o assentar-se à destra do trono de Deus nos Céus sejam princípios eternos na fé de todo o cristão.

E que esse mesmo Jesus seja sacerdote à destra de Deus em Seu trono, deve igualmente ser um princípio eterno na fé de todo o cristão, para esta seja uma fé plena e verdadeira.

Que Cristo, o Filho de Deus, como sacerdote à destra do trono de Deus é “ministro do santuário e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem” será também um princípio eterno na fé madura e plena de todo o cristão.

E esta verdadeira fé em Cristo, o Filho de Deus como o autêntico sacerdote nesse ministério e santuário verdadeiros, à destra da Majestade dos céus, essa fé em que Seu sacerdócio e ministério acabam com a transgressão, põem fim aos pecados, fazem reconciliação pela iniqüidade e trazem a justiça eterna; esta fé, fará perfeito a todo o que a Ele se achega, o preparará para o selo de Deus, e para a unção final do Santo dos santos.

Por meio desta verdadeira fé, todo crente que seja desta fé genuína pode ter a certeza de que nele e em Sua vida acaba a transgressão e se põe fim aos pecados, se faz reconciliação por toda a iniqüidade de sua vida e a justiça eterna vem reinar para todo o sempre. Pode estar perfeitamente seguro disto, já que a Palavra de Deus assim o afirma, e a verdadeira fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus.

Todos quantos pertençam a essa verdadeira fé podem estar tão seguros de tudo o que foi exposto anteriormente, como de que Cristo está à destra do trono de Deus. Podem sabê-lo com a mesma certeza com a qual sabem que Cristo é sacerdote sobre este mesmo trono. Com a mesma segurança de que Ele é ali “ministro do santuário e de aquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem”. Exatamente com a mesma confiança que merece toda declaração da Palavra de Deus, já que esta o estabelece de forma inequívoca.

Portanto, neste tempo, que todo crente em Cristo se levante na fortaleza desta fé, crendo sem reservas no mérito de nosso grande Sumo Sacerdote, em Seu santo ministério e em Sua intercessão em nosso favor.

Na confiança desta verdadeira fé, que todo o crente em Jesus exale um suspiro de alívio, em agradecimento a Deus pelo cumprimento do esperado: que a transgressão se acabe em sua vida, que rompa com a iniqüidade para sempre; que se dê fim aos pecados de sua vida, de forma que se liberte para sempre deles; que se faça reconciliação pela iniqüidade, sendo para sempre limpo dela mediante o sangue da aspersão; e que a justiça eterna seja trazida a sua vida, para ali reinar para sempre, para sustê-lo, guiá-lo e salvá-lo na plenitude da redenção eterna que, mediante o sangue de Cristo, se dá a todo o crente em Jesus, nosso grande Sumo Sacerdote e verdadeiro Intercessor.

Então, na justiça, paz e poder desta verdadeira fé, que todo aquele que o compreenda espalhe para todos os lugares as gloriosas novas do sacerdócio de Cristo, da purificação do santuário, da consumação do mistério de Deus, da chegada do tempo do refrigério e da vinda próxima de Cristo “para ser glorificado em seus santos, e fazer-se admirável naquele dia em todos os que creram”, e “para apresentá-la para Si uma igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, nem coisa semelhante; antes que seja santa e imaculada”.

“Assim, o resumo do que temos dito é: Temos tal pontífice que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus; ministro do santuário, e daquele verdadeiro tabernáculo que o Senhor assentou, e não o homem”.

“Assim, irmãos, tendo liberdade para entrar no santuário pelo sangue de Jesus Cristo, pelo caminho que Ele nos consagrou novo e vivo, pelo véu, isto é, pela Sua carne; e tendo um sacerdote sobre a casa de Deus, acheguemo-nos com o coração sincero, em plena certeza da fé, purificados os corações da má consciência, e lavados os corpos com água limpa”. E “mantenhamos firme a profissão de nossa fé sem desistir, porque fiel é o que a prometeu”.

  • Comentário: Fábio Soares

    É com imensa gratidão a Deus que eu publico esse material, me encontro sem palavras para descrever a aleria em que me encontro, por participar dessa mensagem, e espanto devido a tamanha responsabilidade que essa mensagem exige.